"Sobre o quanto-de-pergunta uma obra é capaz de produzir" - Entrevista com Roberto Corrêa dos Santos

Maria Cristina Ribas, Carlinda Nuñez
2017 Soletras Revista  
Soletras -Conscientes da dificuldade de perguntar sobre um instigante texto-intervenção que não desenha perguntas respondíveis, sequestramos parte do fragmento 2 que subintitula a presente entrevista e pode ser lido acima. A partir daí, com a paixão em suspenso e na expectativa de um mínimo conforto entre vistas, praticamos outro sequestro no fragmento 48 que diz: "Sim: uma obra será tanto mais potente quanto mais perguntas possa oferecer e provocar: ligar-se menos à forma: mais ao pensamento,
more » ... ais ao pensamento, que é por vezes sutilmente ação; que é por vezes escandalosamente ação." Comecemos, pois. Tenho que emerge toda ideia de arte bem como de vida e gesto sócio-políticoexistenciais contemporâneos justamente na passagem abrupta da forma ao pensamento, do saber-fazer ao fazer, do produzir modelos de construção e de beleza ao produzir efeitos e modos de entendimento e crítica; na ruptura epistemológica que se dá na 'queda' relativa da modernidade e de suas questões, quase todas ou respondidas ou abandonadas, o ateliê, a biblioteca, o conservatório não mais tomam a frente das coisas de arte e literatura a se oferecerem ao mundo; e isto ocorre antes bem antes dos eventos tecnodigitais mais próximos do nosso dito hoje; ocorre pelos fins dos anos 50, pelos inícios dos 60 e em grande força nos 70 do século XX. Lá (especialmente nas artes visuais e nos atos da vida cotidiana em geral), para além do que se dá na ordem da escrita literária mas não do que vê na ordem da escrita teórico-filosófica, rui um passado glorioso do bem-criar, do bem-dizer, do bem-agir. Trata-se do nascimento de uma história plástico-lítero-política a falar sem descanso das admiráveis coisas 'mortas' ao tempo em que se faz a história inquieta e ainda estranha das coisas muito vivas, pulsantes e em deriva. Uma história, pois, traçada por perguntas expostas em toda parte; entre as perguntas, (a) o que se faz quando se faz, (b) o que se diz quando se diz, (c) o 1 Roberto Corrêa dos Santos é poeta, semiólogo e professor de Estética e de Teoria da Arte do Instituto de Artes da UERJ. Realiza pesquisas sobre arte e teoria da arte, sobre performance e escrita contemporâneas. Entre os vários livros publicados, o mais recente chama-se Cérebro-Ocidente / Cérebro-Brasil (Rio de Janeiro: Editora Circuito Editora, 2015)
doi:10.12957/soletras.2016.27248 fatcat:cig2hr6e7ja5zmskw2ytnl6ove