E se nós decidíssemos apenas não fazer nada?

Francisco Pimentel Cavalcante
2016 Revista Brasileira de Mastologia  
R ecente estudo sobre carcinoma ductal in situ (CDIS) publicado no periódico JAMA 1 tem sido motivo de discussão pelo mundo. A pesquisa, conduzida pelo Dr. Narod, concluiu que a mortalidade após diagnóstico de CDIS era a mesma independentemente do tipo de tratamento realizado. A investigação ganhou atenção especial da mídia internacional. O título deste texto, a propósito, foi inspirado em recente capa da revista Times. O periódico The New York Times, por exemplo, comentou: "Certa condição de
more » ... Certa condição de câncer de mama pode não requerer tratamento" 2 . Entusiasmadas opiniões de especialistas surgiram sobre o assunto, algumas delas questionando a necessidade de qualquer tratamento para pacientes com CDIS. Mas o que essa publicação nos traz de relevante? Trata-se de um estudo observacional que coletou informações do banco de dados do Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) de 108.196 mulheres diagnosticadas com CDIS, no período entre 1988 e 2011, nos Estados Unidos. A mortalidade por câncer de mama para essas mulheres foi de 1,1% em 10 anos e 3,3% em 20 anos, porém maior entre aquelas diagnosticadas antes dos 35 anos: 7,8 versus 3,2% em mulheres mais velhas. Entre as mulheres que morreram de câncer de mama, 54% não experimentaram recidiva ipsilateral nem na mama contralateral, ou seja, nenhum sinal de câncer invasivo nas mamas além do CDIS. A radioterapia associada à cirurgia conservadora (BCS), comparada apenas à cirurgia, reduziu o risco de recidiva ipsilateral de 4,9 para 2,5%, mas não diminuiu a mortalidade em 10 anos (0,9 versus 0,8%). A diferença de sobrevida após ajustes para tamanho do tumor, grau e outros fatores não foi significante para pacientes que se submeteram à mastectomia ou BCS. Após análise desse estudo, em termos de evidência, podemos deixar de tratar pacientes com CDIS? A resposta, no momento, é não. Todas as pacientes dessa pesquisa receberam alguma forma de tratamento (BCS, BCS com radioterapia ou mastectomia). O que o estudo nos diz é que quando tratamos CDIS o risco de morte é muito baixo, porém não sabemos se o risco de morte por câncer de mama seria semelhante se as pacientes tivessem dado apenas seguimento, sem nenhum tratamento. Vale salientar que de 10 a 38% dos casos de CDIS diagnosticados por meio de agulha têm carcinoma invasor quando a área é retirada 3 . Também há várias limitações nesse tipo de estudo. É possível, por exemplo, que uma revisão de patologia encontre muitos casos de CDIS invasivos. Outras limitações incluem: ausência de informação do status das margens, assim como do número de mulheres tratadas com tamoxifeno. Tais limitações poderiam ter impacto na recorrência e sobrevida. O estudo do JAMA traz, no entanto, uma oportunidade para repensar o assunto. A primeira conclusão é que precisamos nos aprofundar mais a respeito. A investigação Loris (Low Risk) 4 , por exemplo, está em andamento e compara monitoramento versus cirurgia. De acordo com informações on-line da pesquisa, a população-alvo são mulheres com 46 anos ou mais com CDIS (exceto de alto grau). Necessitamos, também, melhorar nosso entendimento da biologia do CDIS de alto risco (tumores maiores, alto grau, receptor hormonal negativo, HER2
doi:10.5327/z201600030011rbm fatcat:yx6t2noftncsbnpetka6ffnzpy