Dos males hipocondríacos. Fragmento

Paolo Zacchia
2006 Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental  
Dos males hipocondríacos. Fragmento Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., IX, 4,[706][707][708] Nesta nossa cidade de Roma, fertilíssima em males hipocondríacos, viveu um homem muito bem afortunado, cujo nome convém que se cale. Ele não somente se comparava a poucos em riqueza, saúde, beleza de corpo e nobreza, mas também, o que é mais importante, era dotado de todas as virtudes e tinha costumes tais que ninguém poderia desejar que fosse mais agradável. Tinha a temperatura dos sanguíneos, a cor viva,
more » ... uíneos, a cor viva, a face alegre, os pêlos loiros, a estatura alta, o corpo bem formado, idade de 36 anos, e deleitava-se com todas as coisas que convém a um homem nobre, como cavalgar, duelar e caçar. Nem por isto era alheio às letras e outras virtudes; gostava sobretudo de música. Apreciava, em particular, o canto dos pássaros e mantinha vários deles, em gaiolas douradas e ornadas com distinção, em cada cômodo de sua suntuosa casa. Gostava tanto desses pássaros, e inclusive de tomá-los na mão, que, como se fosse a causa, começou a estar fora do seu normal e, qual melancólico, a sentir no ventre muitos ares, rumores e murmúrios. Sentindo-se muito perturbado, consultou um médico da família e obteve como resposta, junto a um sorriso, que ele era hipocondríaco e que não tinha mal algum. A despeito do desdém do médico, sua enfermidade agravava dia a dia. Começou a fugir do convívio público e a se aborrecer com as conversas comuns dos
doi:10.1590/1415-47142006004011 fatcat:xlw6w4vpnbdyhcpfvko6iss77q