As dez pragas do Egito sob o olhar transgressor de Moacyr Scliar
Portuguese

Kênia Maria Pereira
2015 Letras & Letras  
RESUMO: Este artigo pretende enfocar o diálogo intertextual transgressor e subversivo que Moacyr Scliar estabelece com a Bíblia na realização de seu conto "As pragas". Essa narrativa apresenta uma estrutura contemporânea e pós-moderna ao eleger a paródia e a ironia como principais elementos de seu discurso ficcional e herético. ABSTRACT: This paper aims to focus on the intertextual, transgressor and subversive dialogue that Moacyr Scliar establishes in his tale "As pragas". This narrative
more » ... his narrative presents a contemporary and postmodern structure, as it chooses parody and irony as main elements of its fictional and heretic discourse. KEYWORDS: Moacyr Scliar. Bible. Parody. Postmodernism. Heresy. "Deixa partir os homens, para que sirvam a Jahweh, seu Deus. Acaso não sabes que o Egito está arruinado?" (Êxodo: 10:6) O personagem bíblico Moisés sempre assombrou a imaginação dos mais diversos escritores e artistas. Para Otto Rank, em sua clássica obra El mito del nascimiento del héroe (1991), por exemplo, uma das causas desse arrebatamento, é o fato de que Moisés seria o herói perfeito por excelência. Uma criança de origem enigmática, abandonada nas águas de um rio, dentro de um cesto de vime, salvo da morte pela filha de um faraó, pertence à categoria dos grandes heróis rebeldes e inovadores, cujos feitos extraordinários mudariam a face da cultura e da história. Embora Regina Zilberman (2008, p.5) comente que um "novo Moisés emerge do livro de Rank, desmistificado e passível de ser matéria de um discurso científico, desprovido da aura com que o passado o representou", Levy-Valensi (1997, p.738) argumenta, por sua vez, que uma das causas de nos sentirmos seduzidos pelos atos deste profeta é o fato de que ele é, ao mesmo tempo, o absoluto e o inacabado. Se ele nos deixa céticos, também toca nossa espiritualidade. E mais: "cada episódio da vida de Moisés inscreve-se no enigma portador de sentido e de sentido sempre inconcluso". Já nas palavras de Joseph Campbell (1997, p.254), * Doutora em Literatura Brasileira pela UNESP/São José do Rio Preto-SP. Professora do Programa de Pósgraduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Uberlândia-MG
doi:10.14393/ll64-v31n1a2015-14 fatcat:kqlvvfs62vbstluh4aq5quq4uy