Sobre a fertilidade das praias dos rios que drenam o Estado do Acre

Marcondes Lima da Costa, Henrique Diniz Farias de Almeida, José de Arimatéia Rodrigues do Rego, Alciney Miranda da Costa, Érica Cristina Acácio Viana, Milta Mariane da Mata Martins, Rômulo Simões Angélica
2003 Rem : Revista Escola de Minas  
Ao tempo da primeira corrida de nordestinos, no século XIX, para as então remotas terras do sudoeste da Amazônia, hoje correspondentes ao Estado do Acre, fugindo da seca dos anos 1880 e atraídos pelo ouro negro (látex da seringueira), eles se depararam com muitas terras, muita água e muitas praias. Surpreendeu-se com uso que os índios faziam das praias para o cultivo de subsistência (Figuras 1 e 2). Para suprir as próprias necessidades, que o mundo adverso, distante de tudo, não lhes provia,
more » ... não lhes provia, passaram a fazer uso desses "solos" intermitentes, típicos do verão (estiagem). Essa atividade passou a ser uma rotina de todo cidadão de bem e trabalhador que vive nas barrancas dos rios Purus, Juruá e seus afluentes, até hoje. Que as terras e solos do Acre são férteis, isto não é nenhuma novidade, pois há muito tempo vem sendo noticiado pela sabedoria popular (Carneiro, 1930), pelo desenvolvimento agigantado de vários cultivares (banana -Musa sapientum, abacaxi -Ananás comosus, mandioca -Manihot esculenta crantz), pelas pesquisas do Radambrasil (1976) e da UFAC (1988). As praias não têm merecido tanto atenção das pessoas, certamente por se tratarem de "solos" geralmente quart-zoso e sem matéria orgânica, indisponível em boa parte do ano e está restrito ao uso da comunidade ribeirinha, humilde e pobre. As praias do Acre se comportam de maneira oposta. Urgia, portanto, investigar uma possível origem geológica para tal fenômeno. Isto foi possível a partir do projeto SELENMERAS, uma pesquisa multidisciplinar e interinstitucional, apoiado pelo CNPq através do Edital Universal 476874-1, iniciado em 2002. Nessa oportunidade foram coletadas 14 amostras (Figura 3) de sedimentos praianos, nas quais foram realizadas análises no intuito de quantificar e identificar a origem da fertilidade dos mesmos. Os sedimentos se revelaram mais sílticos e compostos por quartzo, esmectita, illita, (caolinita) e feldspatos. São ricos em CaO, K 2 O e MgO (acima de 1%) relativamente a outros sedimentos de praias fluviais. Figura 1 -Vista aérea de praia formada ao longo de um meandro (rio Iaco).
doi:10.1590/s0370-44672003000200014 fatcat:3c5thaspmvfcpejul2opfsvazi