Democracia, civismo e cinismo. Um estudo empírico sobre normas e racionalidade

Fábio Wanderley Reis, Mônica Mata Machado de Castro
2001 Revista Brasileira de Ciências Sociais  
O objetivo principal deste texto consiste na apresentação de um conjunto de dados resultantes de projeto executado no Brasil alguns anos atrás. Trata-se de dados manipulados de maneira singela, mas que se mostram relevantes para discussões de grande alcance teórico-metodológico no campo da Ciência Política da atualidade. Começaremos com breve mapeamento do espaço de problemas, em diálogo com algumas posições mais extremadas e características relativamente às questões envolvidas. I O
more » ... as. I O enfrentamento de perspectivas epistemológicas no campo das ciências sociais reflete-se nas discussões sobre a democracia e as condições de consolidação democrática. No plano geral, o principal enfrentamento é provavelmente o que hoje opõe a abordagem da "escolha racional", propensa a destacar os interesses e o cálculo supostamente racional orientado por eles, e uma abordagem "convencional" de tipo sociológico ou sociopsicológico, inclinada a salientar a importância dos valores e normas no comportamento das pessoas. No plano dos estudos sobre a democracia e sua consolidação, a abordagem "convencional" se traduz sobretudo no recurso à noção de "cultura política", concebendo-se o problema da implantação da democracia como sendo, em ampla medida, o da criação e difusão de uma cultura política que lhe seja afim -em particular a "cultura cívica" de que falavam Almond e Verba (1963). 1 Por sua vez, além dos estudos econômicos clássicos do funcionamento do sistema democrático, um exemplo notável da aplicação do instrumental da escolha racional aos problemas da transição à democracia e da estabilidade democrática se tem com os trabalhos de Adam Przeworski. 2 Por contraste com as ênfases unilaterais a serem encontradas nesse confronto de abordagens, uma psicologia capaz de explicar de modo adequado as complicações da ação será necessariamente complexa. Um esquema explicativo satisfatório referiria as ações a atitudes (ou disposições mais ou menos permanentes a agir desta ou daquela forma), as quais, além do componente de aspirações, desejos ou interesses (em acepção ampla desta última palavra, relativa ao aspecto motivacional, como tal, da ação) que está, naturalmente, sempre presente, se veriam sempre também condicionadas tanto por um componente prescritivo (as normas e os valores morais de qualquer natureza)
doi:10.1590/s0102-69092001000100002 fatcat:fu52d2lrmfhjpphqsyewnjkkr4