Uma Reflexão sobre o Hibridismo Cultural e o Processo Identitário de Ciganas Calins Nômades no Rio de Janeiro

Maria Inácia D'Ávila Neto, Cláudia Valéria Fonseca da Costa Santamarina
2015 INTERthesis  
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão teórica sobre o hibridismo como elemento intrínseco ao processo de construção de identidades de mulheres autodenominadas ciganas calins -feminino do povo Calon -que vivem em acampamentos no interior do Rio de Janeiro, a partir da contribuição teórica dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais. Embora o discurso hegemônico ocidental promova uma espécie de etnização totalizante de minorias, transformando práticas sociais dinâmicas em um conjunto de hábitos
more » ... to de hábitos culturais supostamente cristalizados e imutáveis, o processo de construção de identidades entre mulheres ciganas tem se mostrado como um potente exemplo de que a etnicidade não é fixa e nem se extingue com o contato entre culturas. Pelo contrário, é formada em meio a um processo de hibridação com as culturas circundantes, ganha relevo exatamente por suas fronteiras e trocas culturais, exibindo-se como um exercício permanente de negociação de espaços de existência entre diferentes. Palavras-Chave: Mulheres. Ciganas. Identidade. Etnicidade. Hibridismo. INTRODUÇÃO Em vários países da Europa o recrudescimento de atitudes voltadas ao que vem sendo nomeado como "limpeza étnica" tem sido especialmente dirigida aos povos ciganos. Uma lista extensa de casos de anticiganismo em países como França, Alemanha, Romênia, República Tcheca poderia ser criada. Para citar um deles, emblemático, em 2014, na Hungria, conforme noticiado pelo Jornal El País, de Montevideo -Uruguay, mais de vinte por cento da população votou em Gábor Vona, líder do partido Jobbik, que faz pregação de ódio contra judeus e ciganos e propõe terminar com o que chamam criminalidade cigana, instalando campos fechados e vigiados para aprisioná-los e a restauração da pena capital. Como reação, assiste-se a uma mobilização crescente para o reconhecimento social da "nação" Roma, que aspira reunir sob seu título todos os grupos étnicos identificados e agrupados na categoria cigano (GUIMARAIS, 2012), entre eles os nomeados como Sinti e Manouche, da Europa Central, os Kalderash, Lovari, Ursari, Rudari, Aurari, Matchuaia e Xoraxané, que vivem em sua maioria na Europa Oriental, e os Calon, oriundos da Espanha e de Portugal (FRASER, 1995; MARTINEZ, 1986). Reivindicando das Nações Unidas o status de nação não territorial para a categoria "Roma", que substituiria a categoria "cigano", a International Roma Union, criada em 1971 e sediada em Praga, ao declarar representar todas as políticas "Roma" no mundo e atuar no melhor interesse da nação "Roma", promovendo tradições culturais, costumes e a língua dos "Roma" e cooperando, ao mesmo tempo, com autoridades para solucionar os problemas sociais, econômicos e culturais vividos pelos ciganos em cada país em que vivem, parece assumir uma estratégia complexa e, talvez, à luz dos estudos culturais e pós-coloniais, ambígua, de negociar respeito às diferenças culturais. O esforço de oposição às recorrentes ondas de exclusão, contudo, ao agregar diferentes etnias num conceito de mesma nação, que nem sempre é conhecida ou
doi:10.5007/1807-1384.2015v12n1p228 fatcat:yypr7tq4urczlbcwtgeov7ufwy