Do silêncio de Deus ao lugar do desejo

António Joaquim Oliveira
2020
Do silêncio de Deus ao lugar do desejo «O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta...Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão. [...] Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a
more » ... a carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.» Sophia: O Homem Esta breve passagem do conto de Sophia bem poderia ser a ecfrásis de um quadro de Mestre José Rodrigues, porque quase toda a obra do Mestre (esculpida ou desenhada) escorre sofrimento, interroga a solidão e esbugalha o olhar perante o silêncio de Deus. O que não é de admirar, pois todo o acto criador deve conter, na sua essência, o desejo do conhecimento infinito, contrariando, assim, o pecado original, e expressando a sua indignação contra o silêncio de Deus. Esse silêncio, responsável pela carência ontológica, faz do homem um ser incompleto, tornando-o, assim, criador da sua própria criação, recorrendo a mitos, muitas vezes, da Bíblia, fonte inesgotável de motivos que argumentam e alimentam a nossa redenção. Por isso, era preciso que alguém falasse. Era preciso que alguém desse vida ao silêncio. Era preciso que o homem entrasse na sua loucura para se tornar criador e, por inerência, autor da criação que o povoa. E esse alguém, capaz de traduzir a utopia do silêncio }3.1
doi:10.34632/humanisticaeteologia.2012.8640 fatcat:sitprc6e3zbwjguntpvk7lgcj4