Luta e modernidade política: sobre a crítica de Hegel à concepção hobbesiana de "estado de natureza"

Erick Calheiros de Lima
2012 Ethic@: an International Journal for Moral Philosophy  
ERICK CALHEIROS DE LIMA (UNB / Brasil) RESUMO Seguindo a recente ressonância, tanto na teoria social quanto na filosofia política, de tópicos do pensamento hegeliano, pretendo aqui recuperar aspectos sócio-políticos que presidem a crítica de Hegel à filosofia política moderna. Primeiramente, tentarei mostrar que toda a crítica hegeliana ao contratualismo tem uma base sócio-teórica, a saber: a ideia, alcançada ainda em textos da juventude, de que a individualização -compreendida, quer em termos
more » ... da, quer em termos políticos quer em termos históricos, a partir do conceito de luta e de crime -tem uma base incontornavelmente societária (1). Em seguida, investigarei como se pode entender, a partir da discussão anterior, a assimilação crítica do conceito hobbesiano de "estado de natureza", o que conduzirá a uma apreciação dos diversos tratamentos dados por Hegel ao problema da luta (2). ABSTRACT Hegel´s social philosophy has obvious relevance to contemporary discussions on political philosophy and social theory concerning the social basis for the critique of political modernity. This paper supports the view according to which Hegel´s critique of contract theory has a social theoretical framework, namely the view that processes of individualization, understood in political as much as in historical terms by the notions of struggle and crime, presupposes the dynamics of socialization (1). Then, I consider Hegel´s critical assimilation of Hobbes´s state of nature doctrine in order to provide a comparative discussion on Hegel´s different treatments of struggle (2) . Key-Words: G.W.F Hegel. Political Philosophy. Social Theory. Philosophy of Right. Theory of Justice. "A ideia mestra, que anima e estrutura a lógica e a metafísica de Hegel, é sua maneira de desenvolver, de acordo com o modelo de autoridade recíproca e responsabilidade cujo paradigma é o reconhecimento recíproco, o insight de Kant-Rousseau acerca do tipo fundamental de normatividade baseada na autonomia" (BRANDOM, 2002, 234). Introdução Para Hegel, reconhecimento é a base para a compreensão das normas sociais e da subjetividade autoconsciente (BRANDOM, 2002, 228 e ss.), bem como da constituição dos mundos-da-vida sócio-culturais (HABERMAS, 2004, 193 e ss.). A dimensão política do LIMA, E. C. Luta e modernidade política. . 262 ethic@ -Florianópolis, v. 11, n. 3, p. 261 -287. Dez. 2012. reconhecimento está no centro mesmo da noção de sujeito em Hegel: um sujeito não pode ser constituído sem ser reconhecido. Hegel inaugurou uma maneira de pensar que entende a Anerkennung -e a intersubjetividade -como constituinte de sujeitos, de identidades e de conhecimentos. O pós-estruturalismo procurou, por sua vez, substituir a diferença pensada em termos hegelianos por uma leitura de Nietzsche que entende que a diferença é sempre positiva e dispensa o trabalho da negatividade sobre os conceitos, que Hegel contava ser condição necessária para pensá-la. Neste sentido, sob a forte influência de Nietzsche, a noção de reconhecimento foi denunciada como uma variedade do império da "repetição", como embasamento convencional dos regimes de verdade enquanto regimes de exclusão da diferença.
doi:10.5007/1677-2954.2012v11n3p261 fatcat:6um53shcpneu7l5it5vool5riu