Eduardo Reina - Cativeiro sem fim. São Paulo: Alameda, 2019

Rodrigo Simon de Moraes
2020 Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea  
Cativeiro sem fim: as histórias dos bebês, crianças e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil (Reina, 2019) não é um romance. Com títulos como "Giovani e Juracy", "Lia Cecília" ou "Índios Marãiwatsédé", os capítulos tampouco formam uma reunião de contos ou poesias. Produzido de maneira independente, Cativeiro sem fim é um relato jornalístico que revela um fato até hoje oficialmente negado pelo Estado brasileiro: o sequestro de menores por pessoas ligadas às Forças Armadas
more » ... Forças Armadas durante a Ditadura Militar. São conhecidas as aproximações ocorridas entre literatura e jornalismo no Brasil, em especial na década de 1970, na esteira da abertura política (Arrigucci Jr., 1979) . Os chamados "romancesreportagem" tinham como intenção principal "desficcionalizar o texto literário e com isso influir, com contundência, no processo de revelação do real" (Santiago, 1982, p. 52), o que levou os escritores a se depararem com o dilema de fazer conviver no interior do texto o que Walter Benjamin chamou de tendências políticas e literárias. A esse respeito, afirma Benjamin (2012, p. 130): "a tendência de uma obra literária só pode ser correta do ponto de vista político quando for também correta do ponto de vista literário". Mas Benjamin adverte para o tratamento dialético da questão que, segundo ele, "não pode de maneira alguma operar com essa coisa rígida e isolada: obra, romance, livro" (2012, p. 131). Para exemplificar, o autor alemão escolhe o caso de Serguei Tretiakov que, antes de lançar Os generais, atuou na criação de jornais murais e na direção do jornal do kolkhoz. A quem possa apontar que as tarefas de Tretiakov eram as de um jornalista, pouco tendo a ver com literatura, Benjamin diz tê-lo escolhido justamente para mostrar "como é vasto o horizonte a partir do qual temos que repensar a ideia de formas ou gêneros literários [...] se quisermos alcançar as formas de expressão adequadas às energias literárias do nosso tempo" (2012, p. 132). No Brasil, ao tomarmos como verdadeiras as muitas reflexões que identificam os atos de violência da história nacional como constitutivos da cultura brasileira (Ribeiro, 1999; Schollhammer, 2000; Ginzburg, 2012) , talvez possamos olhar para Cativeiro sem fim da mesma maneira como Benjamin olhou para a renovação na imprensa soviética, ou seja, como instância decisiva: "Por isso qualquer análise do autor como produtor deve manter o passo com ela" (Benjamin, 2012, p. 134). Uma das reflexões sobre as características sanguinolentas de nossa formação histórica foi feita por Antonio Candido (1993) no artigo "Censura e violência". No texto, Candido diz ser impossível avaliar a extensão do impacto que o cerceamento da liberdade de expressão dos meios de comunicação teve na mentalidade de toda uma geração: "Censura acompanhada de medidas coercitivas, que vão até a morte, como foi o caso de Vladimir Herzog" (Candido, 1993, p. 206). Pois é justamente o diretor do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, quem aponta perversa forma de censura que o relato de Reina consegue driblar ao trazer à luz os dados investigados: Apesar de ter tido uma das mais violentas e vigorosas ditaduras do continente, com milhares de mortos e desaparecidos, o Brasil tem em seus registros oficiais um único caso de criança sequestrada por motivos políticos durante o regime militar (Sottili, 2019, p. 8). O livro mostra que o número é muito maior que um único caso. Dos dezenove sequestros relatados, onze são ligados à guerrilha do Araguaia e aconteceram entre os anos de 1972 e 1974, durante as gestões dos generais-presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. As vítimas eram filhos de militantes enviados à região ou de camponeses que aderiram ao
doi:10.1590/2316-40186013 fatcat:cvgab6s4wnctzcxyhcwwrobknq