Debatedores

Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, Jorge Huet Machado
2011 Ciência & Saúde Coletiva  
A articulação dos serviços de saúde pública com os grupos acadêmicos no país vincula-se à constituição do campo da saúde do trabalhador, quando, no final da década de 1970 e 1980, durante o período de mobilização pela redemocratização, conflui a emergência de um sindicalismo renovado, o movimento pela reforma sanitária e outros acontecimentos políticos que culminam na Constituição Federal de 1988 e na construção do SUS. Nesse contexto, no interior do campo da saúde pública, surgem Programas de
more » ... urgem Programas de Saúde do Trabalhador, alguns já articulados com Centros Universitários pioneiros na realização de diagnósticos reveladores do ocultamento e da submissão dos serviços privados de empresas ou de inspeções tradicionais do Ministério do Trabalho, então herméticas ao controle social e ao acompanhamento dos sindicatos de trabalhadores. A articulação como meio de agir é fundante do movimento que resulta na Saúde do Trabalhador, enquanto campo de práticas teóricas interdisciplinares -técnicas, sociais e humanas -e interinstitucionais desenvolvidas por atores situados em lugares sociais distintos e alinhados por uma perspectiva comum 1 . Esta busca se manifesta em documentos oficiais como nas diretrizes da vigilância (Portaria MS 3120/98), que prevê: a universalidade das ações; a integralidade; a plurinstitucionalidade, através de ações articuladas entre as instâncias de vigilância em saúde do trabalhador, centros de atendimento e assistência, instituições, universidades e centros de pesquisa sobre saúde e ambiente; instâncias de controle social, com a incorporação dos trabalhadores e de seus representantes, em todas as etapas da vigilância; as práticas de interdisciplinariedade, incorporando as diversas áreas de conhecimento técnico com o saber operário; a pesquisa-intervenção, em que esta subsidia e aprimora a ação; o caráter transformador das intervenções sobre os fatores determinantes e condicionantes dos problemas de saúde relacionados aos processos de trabalho. A perspectiva presente na reflexão realizada por Minayo-Gomez 1 está em sintonia com Lima 2 , que ao analisar duas experiências de saúde do trabalhador -Construção Civil em Belo Horizonte e setor de Mármores e granitos no Espírito Santoressalta a importância das articulações supra-institucionais como modalidades estratégicas de ação em saúde do trabalhador, considerando a complexidade intrínseca das situações e a relativa ineficácia das instituições quando operam isoladamente para intervir nestes processos: se quisermos mudar algo no campo da saúde do trabalhador, não basta continuar fazendo o que fazemos, nem tampouco fazer mais ou melhor, mas sim transformar nossas próprias práticas. As ações coordenadas exigem que cada um de nós se transforme ao se confrontar com a perspectiva do outro, ambos mediados pela necessidade de se confrontar com a transformação efetiva das condições de trabalho 2
doi:10.1590/s1413-81232011000900003 pmid:21860935 fatcat:l3lqnwys3jeg5nb6g3jkelu4da