Imagens-cruzes: a propósito de dois documentários sobre os andes

Renato Sztutman
2009 Religião e Sociedade  
França Equinocial. Maranhão do século XVI. O padre capuchinho Yves d'Évreux tentava explicar para o grande pajé e chefe tupinambá Pacamont quem era aquele "morto tão bem feito e tão bem estendido n'este pau encruzado", ou seja, Jesus Cristo. Com efeito, d'Évreux gastou várias páginas do seu Viagem ao norte do Brasil, de 1616, descrevendo as conversas que mantinha com os tais "feiticeiros" e "principais" a respeito dos símbolos cristãos. Dizia ele àqueles que todas aquelas imagens não eram senão
more » ... gens não eram senão representações do filho de Deus, "feito homem no ventre da Virgem". Representações, vale frisar, já que os indígenas imaginavam estar muitas vezes diante de verdadeiros ídolos esculpidos em madeira, animados por espíritos poderosos. Pacamont era repreendido pelo capuchinho justamente por atribuir à cruz no altar da capela intenção, ação e poder mágico; ou, para usar um termo de Alfred Gell (1998) 1 , agência. D'Évreux lembrava que a cruz não passava de um
doi:10.1590/s0100-85872009000200011 fatcat:6wmxam3s7fc6rafe4edsa2rvrm