O acontecimento e os seus públicos

Isabel Babo
2013 Revista Comunicação e Sociedade  
Resumo A partir da relação intrincada entre produção e recepção, analiso a constituição dos públicos mediáticos e outros, colocando a questão de como a irrupção dos acontecimentos públicos e as notícias correspondentes não se dirigem simplesmente aos públicos mas também os criam. Para tal, proponho uma reflexão sobre a noção de público(s) e sobre o tratamento da mesma por diferentes autores. Considera-se que os públicos são diversos e podem organizar-se em torno de objetos, acontecimentos,
more » ... contecimentos, situações, ações ou em torno de experiências variadas (uma obra literária, a leitura de um jornal, a vivência de um acontecimento marcante, uma catástrofe, um problema coletivo, uma causa pública ou um processo de inquérito). Para conduzir esta reflexão, abordo uma hermenêutica dos públicos para encarar a atividade destes ao nível das suas modalidades e dispositivos de recepção, de interpretação e apropriação. Sigo a orientação pragmática de John Dewey que, em The Public and its Problems (1927), adverte que um grupo de pessoas só se torna num público se ocorrerem determinadas condições: que ele "tome consciência de si mesmo" e que identifique as circunstâncias concretas que o originaram. Palavras-chave Público; comunicação; comunidades de interpretação; recepção 1 Texto retirado da lição de Agregação em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho (5 de fevereiro de 2013). O acontecimento e os seus públicos . Isabel Babo começar por dar uma definição de "público", mas antes ocupar-se das atividades e situações que estão na sua origem. Em que consiste o público? O "público" define-se por oposição a "privado" ou a "particular", podendo, enquanto substantivo, ser entendido como coletivo concreto, receptor ou ator coletivo, ou como categoria. Enquanto coletivo concreto é, na formulação de Esquenazi (2006: 86), "um grupo de pessoas que têm algo em comum". Poderíamos dizer tratar-se de um grupo de particulares ligados por um desejo, interesse, convicção, gosto, experiência ou ação pública comum. Gabriel Tarde, em L'opinion et la foule (1901) , liga a opinião à emergência de um público constituído pelos leitores da imprensa. Há uma dimensão contextual e política no público que se forma graças ao desenvolvimento das comunicações, à imprensa, à liberdade de expressão e de associação, à conversação. O autor encara a possibilidade de se poder pertencer a vários públicos num mesmo contexto temporal, o que é impossível no caso das multidões, e considera a especialização dos públicos (filosófico, científico, literário, político, estético). Também os pensadores da escola de Chicago, Robert Park e Charles Cooley, vêem na imprensa, ou nas notícias, uma base para a formação da opinião pública e dos públicos. Consideram que o lugar do público é no seio do diálogo, no quadro da comunidade local. Este é o entendimento de John Dewey, em The Public and its Problems (1927), para quem a comunicação é a condição prévia da participação e da formação dos públicos, pois na base destes estão as significações comuns partilhadas que estabelecem laços sociais e podem converter uma ação conjunta numa comunidade de interesses (Dewey, 2010 a: 248). Dewey defende a importância da conversação, da cooperação, da associação, da experiência partilhada e considera que o público, na verdadeira acepção da palavra, se constitui em resposta a um problema. O público é, essencialmente, um público político e associativo. Não é dado antecipadamente, antes emerge através das interações entre as pessoas que se constituem como investigadores, que se mobilizam e que participam 2 . O conceito de investigação (inquiry; pesquisa, indagação, inquirição) é uma noção sobretudo naturalista e não cognitiva, que se liga à situação no sentido do processo que transforma uma situação indeterminada numa situação determinada. Na perspectiva do modelo deliberativo do espaço público de Jürgen Habermas (1986), o público é o sujeito coletivo da opinião pública correlativa ao princípio da publicidade, formulado por Kant, que remete para o uso livre e exame público da razão, consistindo em tornar públicas as opiniões, submetendo-as à apreciação do juízo tanto estético como político. A emergência do público como instância superior do juízo está na origem da noção de opinião pública que é, como assevera Habermas (1986: 105), a
doi:10.17231/comsoc.23(2013).1623 fatcat:75l6gjgppfglteiz2qk2h6c26u