A faixa infanto-juvenil como público da ciência e a ciência que lhes é proposta
Portuguese

Carlos Carvalho, Luiza Ramos
2015 Estudos em Comunicação  
Resumo O artigo analisa narrativas sobre ciência em três revistas brasileiras, Ciência Hoje, Ciência Hoje das Crianças e Superinteressante, com foco na destinação a públicos infanto-juvenis. Interessa-nos perce-ber que imagem de ciência as narrativas projetam e em que medida visões pedagogizantes são adotadas como estratégia de aproximação com os públicos referidos. Palavras-chave: Ciência; Narrativas; Público Infanto-Juvenil; Revista. Resumo The article analyzes narratives about science in
more » ... bout science in three Brazilian journals: Science Today, Science Today for Children and Superinteressante, focusing on destination to children and youth audiences. Our interest is to realize what science image those narratives produce, and to what extent pedagogical views are adopted as a strategy of rapprochement with the aforementioned audiences. Palavras-chave: Science; narratives; Public Children and Youth; Magazine. Imaginário e aprendizado das ciências A alfabetização científica é uma ideia que nasceu em uma discussão proposta por John Dewey (1934) sobre a necessidade de que os jovens fossem ensinados, durante os anos escolares, a adquirir uma atitude científica. Para o pesquisador e educador estadunidense, esse movimento ajudaria as Estudos em Comunicação nº 21, 155-164 dezembro de 2015 i i i i i i i i 156 Carlos Alberto de Carvalho & Luiza Lages de Souza Ramos pessoas a pensar de modo racional e elucidado sobre potenciais problemas que pudessem surgir ao longo de suas vidas. Durant (2005) explica que, desde então, o termo "designa o que o público em geral deveria saber a respeito da ciência, e a difusão do seu uso reflete uma preocupação acerca dos sistemas educacionais vigentes" (Durant, 2005, p. 13). Para Miller (2005) , a comunidade científica, com interesses próprios, tendia a manter a definição de alfabetização científica sob sua autoridade, estipulando uma agenda construída internamente, da ciência para o público. Durant (2005) descreve três abordagens centrais para a alfabetização científica -todas problemáticas. A primeira, com foco no conteúdo científico, considera que a atividade envolve saber muito sobre ciência: saber o suficiente e saber cada vez mais. Mas, considerando saber muitos fatos ser diferente de ter um bom nível de compreensão da ciência, ele não considera o conhecimento factual a resposta para a alfabetização científica. Latour (2000) usa o conceito de caixa-preta para trabalhar a dicotomia entre a ciência em construção e a ciência pronta. A caixa-preta seria a marca da exatidão, da ciência pronta. Ela engendra a substituição de questões muito complexas, anteriormente investigadas, por um elemento fixo, dado como certo e pelo qual os pesquisadores passam sem abrir. As caixas se mantêm fechadas para que a atividade científica não se torne impossível. Mas as marcas da ciência pronta são obras da ciência em construção. "Incerteza, trabalho, decisões, concorrência, controvérsias, é isso que vemos quando fazemos um flashback das caixas-pretas certinhas, frias, indubitáveis para o seu passado recente" (Latour, 2000, p. 16). Para Latour (2000) , falar sobre ciência significa abrir as caixas-pretas, falar sobre a ciência em construção. Falar da ciência pronta seria não só reducionista, como possivelmente mostrar às pessoas o que elas já conhecem. Incluindo ao escopo uma dimensão pedagogizante, a não abertura das caixas-pretas implicaria na não inclusão da dimensão incerta, mutável e transformadora da ciência -que nunca se mostrou pronta e intocável na história da humanidade. Seria ignorar a história e as qualidades inerentes à ciência, processos pelos quais um futuro cientista teria que percorrer.
doi:10.20287/ec.n21.a11 fatcat:fsweb6xtxbdlznf6szcglrkxsa