A instituição e as instituições: estudos psicanalíticos

Maria José Tonelli
1993 RAE: Revista de Administração de Empresas  
A instituíÇÕD e as ínstitui{ões: estudos psicanalfticos compõe-se de sete artigos que discutem o funcionamento institucional, a partir do referencial teórico da psicanálise. Analisa-se neste conjunto as instituições terapêutica e familiar. Embora traduzidos para o português com uma certa distância das publicações originais, os textos sáo valiosos, clássicos, no contexto do estudo, da pesquisa e mesmo da intervenção, no trabalho com grupos, tendo em vista sua dinâmica intrinsicamente
more » ... camente psicossocial. O estudo dos grupos e das instituições sempre sofreram dificuldades: no prefácio do livro, a profa. Arakcy M. Rodrigues as aponta tanto na Sociologia como na própria Psicanálise. Estes artigos, entretanto, produzidos por autores com formações diversas, mas que têm fortemente a Psicanálise como seu pano de fundo teórico, dimensionam a relação inconsciente e funcionamento grupal, reforçando a idéia freudiana de que toda Psicologia individual é ao mesmo tempo social. O artigo de Rene Kaes, "Realidade psíquica e sofrimento nas instituições", trata justamente das dificuldades de se analisar as instituições quando se está engajado nelas. Esbarra-se em problemas que o autor qualifica de nardsicos, já que a singularidade de cada sujeito não pode aparecer ao mesmo tempo que a instituição estrutura a identidade de cada um de nós. Para poder realizar suas funções especificas, as instituições nece!l!!itam e mobilizam processos psíquicos. É sobre estes processos que Kaes elabora o conceito de aparelho psíquico grupal. Nas suas palavras: "O conceito de aparellw psfquico de agrupamento permite pensar o agenciamento especifico iia realidade psfquica na relaçilo do indivíduo com o conjunto intersubjetivo no qual toma parte e ao qual dá consistência" (p. 11). Kaez diz que é possível perceber os aspectos inconscientes da realidade psíquica, que estão investidos na instituição, justamente através do sofrimento e da psicopatologia que aí se desenvolvem. São três tipos particulares de sofrimento que o autor examina neste artigo. O primeiro diz respeito à própria fundação da instituição, quando as instituições são insuficientes para sua função; em segundo lugar, o sofrimento pode estar relacionado à impossibilidade na realização da tarefa primária e tarefas secundárias se colocam no lugar. Finalmente, pode haver um distanciamento entre os objetivos institucionais e aquilo que se pede para os indivíduos realizarem. O segundo texto, de José Bleger, "O grupo como instituição e o grupo nas instituições", propõe que há entre os grupos aquilo que ele denomina de sociabilidade sincrética, isto é, "um tipo de relação que, paradomlmente, é uma niio-relaÇÕIJ, ou seja, uma não individm~ÇÕD; este tipo de relaçiio impííe-se como matriz ou como estrntura de base de todo o grupo e persiste de maneira variáoel durante toda a vida" (p. 41). Para o autor, justamente o fundo de sincretismo é o que constitui e estabelece os laços mais estreitos entre os membros do grupo. Ele explica, contrapondo-se a um exemplo dado por Sartre, que numa fila de espera por um ônibus, onde, na concepção sartriana, o indivíduo está totalmente isolado, que "a sociabilidade sincrética estti prlsente, está depositada nas regras e nas normas que regem todos os indivíduos" (p. 45). Para Bleger, "podemos nos camportar COTIW indivíduos em interaçilo, à medida que participamos de regras e de normas que slW mudas, mas que estão presentes e graças às quais podemos entilo desenvolver outras regras de comportamento. Para entrar em interaçiio, é preciso que haja um fundo comum de sociabilidade." (p. 45) O autor desenvolve, então, três tipos de vínculos que os indivíduos podem estabelecer com o grupo: o primeiro, que procura estabelecer sua identidade através do grupo, num processo mais simbólico, e aí estes indivíduos terão um papel de estagnar o desenvolvimento do processo grupal; outro tipo constituido para personalidades psicopáticas, perversas e para as quais a interação com o grupo pareçe não ter um papel não fundamental. O terceiro tipo constituldo pelo que o autor denomina de pessoas neuróticas ou normais, e que, ao participarem do grupo, podem se mostrar ativas. No artigo "O trabalho de morte nas instituições", Eugene Enriquez afirma que, em primeiro lugar, é preciso delimitar o campo de análise: "A família, a Igreja, o Estado e os 'grupos' educatrvos e terapêuticos podem, com toda razão, ser considerados como instituíç!Jes, porque todos coloca:m o problema da alteridade, ou seja, da aceitaÇÕD de outro enquanto sujeito pensante e aut6nomo par cada um dos atores sociais que mantém com ele relações afetivas e vfnculos intelectuais." (p. 53) Nesta medida, elas permitem que as pulsões sejam alocadas em favor do "bem comum". Enriquez enfatiza a idéia freudiana, da necessidade das instituições sem as quais não existiria civilização. Mas também a concepção freudiana é força atuante de que as instituições estão fundadas sobre sua violência original, e que ela pede que os indivíduos renunciem à satisfação das pulsões, e ao fazer isso, "é capaz de Revista de Administração de Empresas
doi:10.1590/s0034-75901993000500009 fatcat:j5rx7uezdjgk7el4npudpuxwoe