Labirinto de Espelhos: Orientalismos, Imigração e Discursos sobre a Nação no Brasil / A Labyrinth of Mirrors: Orientalisms, Immigration and Discourses about the Nation in Brazil

Paulo Gabriel Hilu Da Rocha Pinto
2016 Revista de Estudios Internacionales Mediterráneos  
Este artigo analisa a constituição do orientalismo brasileiro nos séculos XIX e XX, interrogando como diferentes dispositivos discursivos articulam-se em torno de objetos construídos como parte de um "oriente" de modo a produzirem distintos regimes de verdade, projetos de realidade e hierarquias culturais. Esta análise do orientalismo brasileiro mostra como ele constitui um campo de discursos, representações e práticas que refletem os imaginários sociais e as ansiedades culturais que circulavam
more » ... rais que circulavam tanto na sociedade brasileira quanto nas comunidades de imigrantes médio-orientais e seus descendentes. Palabras clave: Brasil, Orientalismo, Sírio-Libaneses, Imigração, Nacionalismo This paper analyzes the constitution of Brazilian orientalism in the late nineteenth and early twentieth century. It interrogates how discrete discursive regimes articulate around objects constructed as part of an imagined "Orient" as well as which regimes of truth, projects of reality, and cultural hierarchies are produced by them. This analysis of Brazilian orientalism shows how it constitutes a field of discourses, representations and practices that create discrete regimes that reflect the social imaginaries and cultural anxieties that circulate in both the Brazilian society and the communities of Middle Eastern immigrants and their descendants. 48 Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes de fala e cultura árabe oriundos do Oriente Médio e do Norte da África encontraram um universo cultural no qual já circulavam algumas representações sobre quem eles eram qual seria o seu lugar possível na sociedade brasileira. A maioria dessas representações derivava do orientalismo europeu, embora se possa falar de certas especificidades do orientalismo brasileiro. O orientalismo português, que era uma das referências utilizadas pelos intelectuais brasileiros para pensar as populações do Oriente Médio, oscilava entre representações dos árabes como um povo indolente e irracional e aquelas que os colocavam como uma das matrizes culturais da "nação portuguesa" . Embora o orientalismo centrado em representações negativas sobre os árabes fosse bastante forte no Brasil desde o século XIX, seria bastante redutor considerar o campo do orientalismo apenas segundo o prisma dos estereótipos estigmatizantes e do projeto de poder colonialista, como proposto por Edward Said (1990), ou da visão bastante idealizada que imagina o orientalismo brasileiro como benevolente e positivo. Inspirado na avaliação crítica que Jean-Pierre Thieck (1992: 215-217) fez da teoria de Said, proponho analisar como diferentes dispositivos discursivos articulam-se em torno de objetos construídos como parte de um "oriente" de modo a produzirem distintos regimes de verdade, projetos de realidade e hierarquias culturais.
doi:10.15366/reim2016.21.004 fatcat:t6wkldqowfgxtck6tkx2be24pu