Rye ergot alkaloids and analogs: mechanism of action and therapeutic perspectives
Alcalóides da cravagem de centeio e compostos análogos: mecanismos de acção e perspectivas terapêuticas

W Osswald
Acta Médica Portuguesa  
As hipóteses são andaimes indispen sáveis para a construção do edifício; o operário porém, não poderá tomar os andaimes pelo edifício. Goethe RESUMO Este artigo propõe-se analisar a acção complexa e plurivalente dos alcalóides da cravagem de centeio e de compostos com eles relacionados (ergalóides), quer no ponto de vista farmacológico, quer no das suas aplicações terapêuticas. Conclui-se que os ergalóides se revestem do maior interesse, tanto para o farmacologista como para o terapeuta,
more » ... o terapeuta, dependendo a vasta e aparentemente desconexa lista de indicações destes compostos apenas da sua acção agonista ou antagonista ao nível dos receptores (nomeadamente os receptores adrenérgicos alfa, dopaminérgicos e serotoninérgicos). Embora outros ergalóides sejam brevemente considerados, este artigo discute mais pormenorizadamente as aplicações terapêuticas da bromocriptina e da dihidroergo toxina. A bromocriptina constitui um excelente exemplo para ilustrar o impacto de um agente terapêutico nos trabalhos de pesquisa, demonstrando a inter-relação que existe entre as drogas utilizadas na terapêutica e a investigação farmacológica. Por outro lado, a dihidroergotoxina, um composto largamente empregue em várias situações de patologia cerebral inespecífica (por vezes com resultados duvidosos), ilustra, de uma maneira negativa, a excessiva permeabilidade da opinião médica à propaganda farmacêutica. Não é frequente acontecer, em terapêutica, que um fármaco ou grupo de fármacos ocupe, durante longo tempo, as atenções médicas por manter manifesta utilidade. É o que acontece, principalmente, com os digitálicos, o ópio e seus alcalóides, a beladona e a cravagem de centeio. Ao interessado na história da terapêutica, a cravagem e seus alcalóides parecerão sempre peculiarmente fascinantes, com o seu longo cortejo de muta ções, desde a descrição seiscentista de Lonicer~e a trágica experiência das epidemias de ergotismo gangrenoso ou convulsivo (fogo de Santo António) até ao fenómeno do uso em grande escala de derivados da cravagem, em situações aparentemente tão díspares como, por exemplo, a doença de Parkinson, a demência senil, a hiperprolactinemia com galactorreia, a prevenção da trombose venosa per e pós-operatória. De qualquer modo, estes princípios activos encontram-se em uso terapêutico (embora tenham conhe cido períodos de maior ou menor favor) há 170 anos e tão invulgar longevidade tera * Stearns descreveu em 1808 a acção occitócica de extractos de cravagem (pulvis parturiens); o uso, em doses excessivas, de extractos não estandardizados ocasionou complicações fatais, que levaram os seus detractores a propor que o extracto fosse designado, não como pulvis ad partam, mas sim como palvis ad moi-tem. Já então, eficácia e risco eram os parâmetros por que se avaliava do interesse de um medicamento. Recebido para publicaçáo: 4 Outubro 1979 130 WALTER OSSWALD pêutica merece, por si só, que nos detenhamos um pouco a analisar os mecanismos de acção implicados e as perspectivas terapêuticas que, curiosamente, se caracterizam por uma investigação extremamente activa e pela abertura de novas vias. Não admira que o interesse pela cravagem tenha conhecido novo surto de entusiasmo, de que são sinais marcantes e recentes a publicação de um grosso volume a ela dedicado, na prestigiosa série do Manual de Farmacologia Experimental de Heffter-Heubner e a realização, na Universidade de Nova lorque, de um Simpósio Internacional sobre alcalóides da cra vagem *. Este renovado interesse não poderia deixar indiferente quem trabalha no Laboratório de Farmacologia da Faculdade de Medicina do Porto, em que se realizaram numerosas investigações sobre a farmacodinamia dos alcalóides da cravagem '~. Ergalóides: Alcalóides da cravagem de centeio e com postos análogos A cravagem de centeio (Claviceps purpura, fungo parasita do centeio e outras gramináceas) contém numerosos alcalóides (clavinas, ácidos lisérgicos, amidas do ácido lisérgico e peptídeos do ácido lisérgico) de bem diversa actividade biológica e impor tância terapêutica. Não surpreende, pois, que os químicos se tenham dedicado à mani pulação molecular e preparado, por semi-síntese ou síntese integral, compostos análogos ou derivados. Desta forma, encontram-se hoje descritas algumas centenas de compostos pelo que a célebre frase de Moir,'7 a cravagem é uma espécie de arca de tesouro para o farmacologi~sta mantém toda a actualidade. Quimicamente, trata-se de compostos contendo um sistema tetracíclico, o ergoleno, que se pode considerar com uma indolquinolina parcialmente hidrogenada. Os aspectos estruturais, particularmente os estereoquímicos, de isomeria e de nomenclatura, vêm complicar apreciavelmente este capítulo e não serão considerados neste trabalho. Parece-nos todavia defensável, sem a pretensão de criar um neologismo e a utilização do termo de ergalóides para designar o~rupo de alcalóides da cravagem, de derivados obtidos por modificação química da sua estrutura (p. ex. hidrogenação ou halogenação) ou por métodos sintéticos mais complexos, e é nesta acepção que passaremos a usar, para maior simplicidade, o termo de ergalóides.
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