As dimensões político-sociais de uma epidemia: a paulicéia desvairada pela gripe espanhola

Christiane Maria Cruz de Souza
2005 História, Ciências, Saúde: Manguinhos  
A partir das últimas décadas do século XX, a saúde e a doença têm se tornado temas prolíficos entre os cientistas sociais. O diálogo entre as ciências humanas e sociais e as ciências biomédicas ampliou o foco sobre o assunto, permitindo que o processo saúde-enfermidade fosse estudado não só como um problema em si, mas também como ferramenta para discutir as intricadas relações sociais e de poder, as concepções culturais, os valores sociais e as práticas institucionais de uma determinada
more » ... determinada sociedade. Alguns estudos realizados dentro dessa temática partem do princípio de que as implicações das causas morbígenas sobre a vida ultrapassam o biológico, bem como julgam que a doença não pode ser examinada fora da estrutura social na qual está inserida. 1 Considerando-se esse pressuposto, indivíduos e grupos sociais em tempos históricos e espaços geográficos diferentes produziram seus próprios modos de definir a etiologia, a transmissão, a terapia apropriada e os significados de uma doença. Essas definições refletem não só a mudança do conhecimento e das tecnologias médicas, mas também influências mais amplas, tais como convicções religiosas, obrigações de gênero, de nacionalidade, de etnias e de classe, além de políticas e responsabilidades estatais. Nesse sentido, apesar de a doença ser um evento biológico imediato, com um repertório de práticas e construções verbais específicas que refletem a história institucional e intelectual da medicina, constituise, também, em um evento social, tornando-se uma ocasião potencial de desenvolvimento e de legitimação de políticas públicas, um aspecto do papel social e da identidade individual, uma sanção para valores culturais e um elemento de estruturação do saber médico em sua interação com o enfermo (Rosenberg, 1997, p. xiii). Dentro de uma perspectiva histórica que propõe a interação poderosa entre cultura, história, medicina e sociedade, insere-se o estudo das epidemias. As crises epidêmicas provocadas por doenças contagiosas como a varíola, a febre amarela, a peste bubônica, a gripe e o cólera, passaram a ser objeto da história da medicina e da história sociocultural da doença, considerando-se as suas dimensões sociais, culturais e políticas. As relações entre o Estado, o conhecimento médico, as políticas de saúde pública, as exigências do sistema econômico, as percepções e
doi:10.1590/s0104-59702005000200023 fatcat:sbzfwi6vsng2tpauexwzvhxqla