Autoria, autenticidade e apropriação: reflexões a partir da pintura aborígine australiana

Ilana Seltzer Goldstein
2012 Revista Brasileira de Ciências Sociais  
Estive na Austrália por um período curto, mas muito intenso, de janeiro a abril de 2010. Na ocasião, conheci museus de arte e galerias comerciais em diversas cidades, conversei com colecionadores, curadores e artistas. 2 As dimensões e a diversidade do chamado Australian Indigenous art system impressionam. Estima-se que existam, hoje, cerca de 7 mil artistas indígenas 3 na Austrália, muitos dos quais participam regularmente do circuito de museus e bienais e têm seus trabalhos comercializados
more » ... comercializados por casas de leilões e galerias comerciais. Produzem esculturas em madeira, gravura em papel, batiques e objetos de fibra trançada, mas a pintura bidimensional é a mais abundante e aquela com maior aceitação no circuito internacional de arte contemporânea. Em linhas gerais, a pintura abstrata -ou melhor, que a nossos olhos parece abstrata -, feita com tinta acrílica sobre tela, predomina no Deserto Central, ao passo que a pintura figurativa, realizada com pigmentos naturais Introdução "Hello, my name is Wukun Wanambi and I am an artist". Foi dessa maneira -e com certo orgulho -que uma liderança yolngu da comunidade de Yirrkala, em Arnhem Land, apresentou-se quando conversamos pela primeira vez. 1 Com aquela frase, muito estava sendo dito. Os povos indígenas da Austrália têm na produção artística, hoje, sua principal fonte de renda, e utilizam-na como arma para conquistar visibilidade em uma nação cujo passado colonial é dos mais terríveis. * Esse texto é uma versão modificada da comunicação apresentada no 34º Encontro da Anpocs, em 2010. Agradeço aos coordenadores, debatedores e participantes do ST "Imagens e suas leituras nas ciências sociais", bem como ao parecerista da Revista Brasileira de Ciências Sociais e a Mariana Françoso, pelas sugestões e comentários.
doi:10.1590/s0102-69092012000200006 fatcat:cetwk7a6xbcyxoa4ffqaxmgt5y