Di�logo entre o latim e o portugu�s no s�culo xvi

2013 Abriu: Estudos de Textualidade do Brasil, Galicia e Portugal  
Diálogo entre o latim e o português no século xvi IgnaCIo vázquez dIéguez Universitat de Barcelona Resumo: No século xvi irromperam posições defensoras do uso da língua portuguesa em todos os âmbitos da escrita e não apenas da produção literária. O latim como língua elevada para fins científicos e jurídicos mostrava-se inadequado para algumas esferas do conhecimento e, principalmente, como transmissor de informação de novas realidades. Ver-se-á como os Descobrimentos de Oriente vieram
more » ... te vieram demonstrar a pertinência do uso exclusivo para tais fins do português, língua vernácula. Palavras chave: latim, português, descobrimentos, oriente, ocidente. Dialogue Between Latin and Portuguese in the 16 th Century Abstract: In the 16 th century, positions defending the use of the Portuguese language in all areas of writing, not only in literary production, emerged. Latin, as a highly scientific and legal language, proved to be inadequate for some spheres of knowledge and especially for the transmission of the information of new realities. The discoveries that came from the East demonstrated the relevance of the exclusive use of the vernacular, the Portuguese language, for such purposes. Sustentava contra elle Venus bella, affeiçoada aa gente Lusitana por quantas qualidades via nella da antiga tam amada sua Romana; nos fortes corações, na grande estrella que mostràrão na terra Tingitana: e na língoa, na qual, quando imagina, com pouca corrupção crê que he a Latina. Camões, Os Lusíadas, 1572, i, 33 Entra na cena a bela Vénus para justificar o papel que o poeta lhe atribuiu. Por três razões protegerá os nautas lusíadas na sua viagem oceânica: por serem descendentes de romanos, pelas vitórias atingidas no Norte de África -a marroquina terra tingitana, próxima de Tánger -e pela língua portuguesa, Ignacio Vázquez Diéguez Abriu 2 (2013): 57-71 que a deusa entende, com pouca corrupção, semelhante ao latim. Camões leva até 1572 com estas rimas um antigo e tenso diálogo que já durante os séculos medievais se vinha produzindo entre as línguas românicas e o latim. Não obstante, não é pouca a corrupção nesse século xvi tão camoniano em que a língua lusa protagoniza já um caso singular entre as línguas europeias ao sobrepor-se à de Cícero em todos os âmbitos da escrita. E nesse processo de distanciamento, a chegada das naus portuguesas ao Oriente, e pouco depois ao Brasil, é condição principal. A pouca distância que adverte Vénus entre o português e o latim nessa bela estância do primeiro Canto lusíada era muito mais dilatada entre as vozes dalguns dos mais afamados humanistas portugueses. E é essa uma conceção da língua que nem só incumbe a reputados gramáticos como Jerónimo Cardoso; mesmo também a distantes físicos, como o médico judeu Garcia de Orta, por citar dois autores fundamentais do pensamento renascentista que representam as posições mais antagonistas no que respeita à língua. Jerónimo Cardoso (c. 1508-1569), autor do Dictionarium latinolusitanicum (Coimbra, 1569), o primeiro trabalho lexicográfico português entre o latim e a língua vernácula, era professor de gramática (latina) na Universidade de Lisboa e a sua ideia perante a língua própria estava ainda ao serviço da língua do Lácio, da língua por antonomásia. Em 1563 louvava a poesia do seu amigo Georges Buchanan, o humanista escocês, nestes termos (Cardoso 2009: 129): [...] Et, tua cum Lybicis non cedant iugera glebis Nec Siculis, nostro pellis ab orbe famem, Cumque opicus nobit sit sermo, et barbara lingua, Vt quibus haud unquam cognita Pallas erat [...] 1 [...] E, pois que a tua jeira não cede diante dos montes líbicos Nem dos sículos, mitigas a fome do nosso país E, dado que temos uma conversação mais grosseira e bárbara a língua, Como aqueles de quem nunca Palas conhecida fora [...]
doi:10.1344/105.000002046 fatcat:gcijerinmzhyrhoqnlatfouag4