O profissionalismo e a construção do gênero na advocacia paulista

Maria Da Glória Bonelli, Rennê Martins Barbalho
2008 Sociedade e Cultura  
Este artigo focaliza a construção social do gênero na advocacia, ambiente no qual o profi ssionalismo predomina. Baseia-se em levantamento quantitativo sobre as equipes dos escritórios de advocacia da cidade de São Paulo, e prioriza entrevistas qualitativas com 16 advogadas e advogados do interior e da capital desse estado. O argumento é que a ideologia do profi ssionalismo é parte constitutiva do processo de construção do gênero no trabalho profi ssional, alimentando distinções entre o
more » ... ões entre o feminino e masculino nos escritórios, em vez da superação dessas desigualdades ao viabilizar a profi ssionalização da advogada. O material mostra como esse processo é legitimado na carreira, tanto por homens quanto por mulheres. No entanto, as formas como essa construção ocorre diferenciam-se tanto pela posição alcançada na carreira, como pela origem social, geração e dupla jornada. Palavras-chave: profi ssionalismo; advocacia; gênero; carreira jurídica. Introdução A criação dos cursos jurídicos no Brasil ocorre na primeira metade do século XIX. Estes espaços públicos mantêm-se reservados somente aos homens por várias décadas, período no qual se constituiu o profi ssionalismo e o desenvolvimento da ideologia da neutralidade como basilar à expertise. Os trabalhos acadêmicos sobre a origem e organização das profi ssões jurídicas não registram a presença de nenhuma mulher (entre eles Adorno, 1988; Bonelli, 2002; Coelho, 1999). Perrot (2005) nomeou as ausências não registradas nas análises históricas de os silêncios da história. A participação das mulheres nos cursos jurídicos ganha densidade a partir da década de 1970, intensifi cando-se com o boom das faculdades privadas de Direito nos anos 1990, que ampliou as oportunidades de ingresso para aqueles provenientes de origens sociais diversifi cadas. Entretanto, os efeitos de uma ordem criadora articulada predominantemente por homens, brancos, heterossexuais e da elite dominante durante o primeiro século de existência dos cursos de Direito reforçam os traços de desigualdades que ecoam na contemporaneidade, pois é um passado que marca profundamente o presente profi ssional, entre homens e mulheres. Partindo desse legado, hoje se observa o acentuado crescimento da presença feminina na advocacia brasileira. Em 1996, havia 67% de
doi:10.5216/sec.v11i2.5287 fatcat:3hhkukqrujc3td5un5ffcwy2em