Origens da civilização eolo-jônica. Comentários sôbre Homero e Tales de Mileto

João Francisco De Souza
1956 Revista de História  
A História, mormente a da Antigüidade, não pode ser considerada como definitiva. A apreciação dos fatos, à luz das novas descobertas, tem de modifiçar-se e aperfeiçoar-se freqüentemente, para que a verdade se apure e ganhe maior relêvo, mesmo dentro da massa das contradições irremediáveis. Assim afirma Vignaud: dezenas de vêzes já se escreveu a história da Grécia e de Roma, e ainda o será muitíssimas outras, não para que lhe sejam acrescentados fatos inéditos, mas tendo-se em vista provar que
more » ... vista provar que êsses fatos devem ser encarados de outra maneira: o que resulta em conclusões diversas das admitidas anteriormente. Do mesmo modo se deve olhar o caso das biografias. E' certo que não poderei trazer nenhuma contribuição, ainda desconhecida, para melhor esclarecimento das vidas de Homero, ou de Tales. Mas, as descobertas que, a partir de 1900, se realizaram acêrca da civilização cretense permitem, a meu ver, o reestudo dos subsídios, já conhecidos, por um prisma um tanto diverso, e certamente bem mais interessante. Por outro lado, os progressos da egiptologia firmaram algumas novas conclusões, que se não devem também esquecer, ao analisar as próprias descobertas atribuídas a Tales de Mileto. Cabe-me, pois, traçar êste ligeiro ensaio, respeitando sempre, tanto quanto possível, as normas da orientação moderna. * * * Louvando-se, principalmente, nas memoráveis descobertas realizadas, na ilha de Creta, por Sir Arthur Evans e outros ilustres arqueólogos, publicou, em 1923, Gustavo Glotz, uma síntese histórica da Civilização Egeana que, no gênero, é a obra mais impressionante e instrutiva do corrente século. Glotz, com efeito, conseguiu reanimar, neste luminoso trabalho, tôda a civilização cretense, desde as suas enigmáticas origens, até o aniquilamento definitivo, pelos invasores dóricos. Como hoje está provado, a civilização em Creta principiou na idade neolítica, demonstrando êste fato que o seu povoamento foi muito posterior ao de outras regiões da Terra, e, ao demais, que "esses ocupantes, quando aí chegaram, já haviam conseguido rela tivo progresso cultural. A procedência de tais elementos é ainda muito obscura, sabendo-se, entretanto, que eram dolicocéfalos, do tipo mediterrâneo . Embora a civilização dos povos danubianos, a uns 3500 anos antes da éra vulgar, já houvesse alcançado a Macedônia e a Tessália, desenvolvia-se, porém, sem nenhum contacto com a população insular. Entre ambas, permanecia o Peloponeso inteiramente deserto . Alguns séculos depois, houve, todavia, na Egêida, um grande movimento migratório. As ilhas povoaram-se de bandos vindos do Oriente, ainda que nem todos fôssem da mesma origem, pois apareceram, então, muitos homens de cabeça redonda, característica dos asiáticos, que se misturavam com os dolicocéfalos. Seriam êsses invasores os cários, às vêzes também chamados lelégios, mau grado os gregos, mais tarde, dessem o nome de pelasgos a todos os povos que habitavam as ilhas e a própria península, antes de suas irrupções. Não é fácil precisar a questão das datas. Mas, segundo o ilustre Hroznr, na sua História da Ásia Anterior, em um texto geográfico, encontrado em Assur, e que enumera as conquistas de Sargão, acham-se expressamente indicados o país do chumbo e o país de Kaptara, regiões que existiam no Mar Superior, o Mediterrâneo de nossos dias. Kaptara é o mesmo Kaphtor do Antigo Testamento, nome da ilha de Creta, como se aceita hodiernamente. Na opinião de Hrozr4r, Sargão teria, realmente, conquistado esta ilha e, talvez, também, as célebres minas de chumbo e prata, existentes no monte Laurion, situado na Ática. A seu ver, as inscrições cretenses (cuja tradução estava procurando realizar) atestam a grande influência de Babilônia sôbre a ilha, em épocas remotas, de vez que, entre os nomes geográficos insulares, existem diversos de origem babilônica e amorriana. Como se sabe, entretanto, Sargão viveu, aproximadamente, no ano de 2400, antes da éra corrente, sendo considerado o grande herói nacional dos semitas de Babilônia, por ter fundado o poderoso império de Akkad Seja como fôr, a verdade é que, alguns séculos mais tarde, um pouco antes do ano de 1900, quando os aqueus ou aqueanos, de origem européia, fizeram sua aparição na Tessália, o império dos Minos se estendia por tôda a bacia oriental do Mediterrâneo. -343 -"A simples lista das cidades que tomaram o nome de Minoa, escreve Gustavo Glotz, indica-nos, em conjunto, a extensão do império minoano; sua situação geográfica designa-as, ao mesmo tempo, como pontos de apôio de navegação e como feitorias. Havia duas Minoas na própria ilha de Creta, e havia outras, também, nas ilhas de Delos, de Amorgos, Paros e Sifnos; havia urna na Lacônia e outra no fundo do gôlfo Sarônico; havia Minoas desde a costa síria até a Córcira e a Sicília. Nestes limites, muitas cidades, cujos nomes terminados em rito, como labirinto, ou em sso, como Cnosso, pertencentes a uma língua pré-helênica, eram "isitadas ou ocupadas pelos minoanos. Estavam êles fortemente estabelecidos em todo o istmo da Argólida, de Tirinto e Corinto. Sôbre a costa oriental da Afica, a planície de Maratona, de Prohalintos a Tricorintos, conserva sempre a lembrança do Touro cretense, e o seu próprio nome permanece, talvez, no primeiro dos aludidos burgos". Por êste motivo, conclui Gustavo Glotz que o primeiro império marítimo, a primeira talassocracia a surgir sôbre a face da Terra foi a estabelecida pelos cretenses, cujos barcos alcançavam o Egito e subiam o Nilo, onde os insulares, durante séculos, tiveram o nome de Kef ti, que lembra o Kaphtor dos israelitas. * * * Há, na civilização insular, um aspecto ainda mal estudado, que, apesar disto, deve merecer-nos, pela sua importância, um interêsse
doi:10.11606/issn.2316-9141.v12i26p341-377 fatcat:yeh4x6awwbdhjicozzq4rdtxeu