A não-escuta do analista enlutado: desafio psíquico, dilema ético
Non-listening as a response of a grieving analyst: a psychic challenge, an ethical dilemma

Maria Carolina Scoz
2012 O Mundo da Saúde  
Dilemas são fontes de angústia para quem os vivencia, mas, vistos de longe, são provocações extraordinárias para o debate. Em parte porque todo o rigor de argumentação que a ciência exige (com a demanda metodológica por fundamentação teórica, nitidez de hipóteses e coerência entre ideias que culminarão numa conclusão) afrouxa--se quando estamos diante de um dilema. Não há sentido em "descobrir" a resposta para um dilema, ou em "decidir" qual posição é a correta, pois a própria palavra indica
more » ... a palavra indica que necessariamente há -e sempre haverá -"dois lemas" (não por serem dois é que a reflexão se estende ao infinito, mas por serem controversos e irreconciliáveis). Além disso, talvez o que impossibilite um "ponto-final" convincente no debate é que não há como colocar-se no lugar perturbador de quem vive sob a pressão da escolha (em uma daquelas situações terrivelmente dolorosas que confundem o pensamento) e supor que agiríamos dessa ou daquela maneira, quando estamos na condição privilegiada de quem analisa sem pressa os muitos aspectos de uma tragédia que, à distância, apenas imaginamos. Desse ponto de vista, abre-se mão de apontar com o dedo qual teria sido a "melhor solução", pelo menos se reconhecemos a natureza complexa, contraditória e, algumas vezes, caótica que nos constitui. Dizemos com convicção que agiríamos dessa ou daquela forma no lugar de quem enfrenta uma perda, mas essas afirmações tão resolutas sobre situações que jamais vivemos indicam, na melhor das hipóteses, apenas o que gostaríamos de ser capazes de fazer -e a prova disso é que nossas teorias e intenções não garantem o que efetivamente conseguiremos fazer diante de realidades difíceis como separações, doenças ou mortes, sobretudo as imprevisíveis (embora sejam acontecimentos que todos enfrentaremos pelo menos uma vez na vida, contamos sempre com a chance de interferirmos sobre os fatos e preservarmos por mais algum tempo o que amamos). Poeta dedicado ao "aprendizado da finitude", como defende Rosenbaum (p. 76) 2 , Manuel Bandeira escreve sobre esse não-saber intrínseco à morte: "Quando a Indesejada das gentes chegar (não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: -Alô, iniludível!" 3 . Resta, se a proposta é compreender um dilema, uma reflexão ex post facto, em que olhamos para um enredo de sofrimento e perguntamo-nos: "Quais as razões para essa, e não outra decisão?". Essa é a questão que será abordada ao longo do presente texto. Quais os motivos de Giovanni, um O trabalho do analista é conflituoso. É o produto de uma luta constante entre o ouvir, o mal-ouvido, o não-ouvido, o nunca ouvido, o inaudível -porque não perceptível -e o horror provocado pela audição 1 .
doi:10.15343/0104-7809.20123611136142 fatcat:nmgp5uw4pjhchctwsvmd3u4ebi