Nota introdutória: ressignificações da festa e identidades comunitárias

Rita Ribeiro, Manuel Pinto, Maria Erica de Oliveira Lima
2019 Revista Lusófona de Estudos Culturais  
Ela é nossa!" -dizem os bugios aos saltos na festa de São João de Sobrado. Não é certo a que se referem, se à imagem de São João que disputam com os mourisqueiros, se à própria festa. Seja como for, podemos dizer que a festa conhece no presente um momento de afirmação, que é acompanhado por uma desafiante ressignificação. Tão importante quanto a festa, na sua dimensão simbólica e ritual, são os grupos que a fazem. Assim, estudar as festas na contemporaneidade exige um mergulho nas comunidades
more » ... o nas comunidades que festejam, para quem a "sua" festa é tradição, mas também afirmação identitária e celebração comunitária, a que são dedicados consideráveis recursos (materiais, de tempo e de energia). Em todos os tempos e latitudes, os eventos festivos, por entre a mais exuberante diversidade, revelam-se como uma invariante da cultura enxertada em três pontos: o sagrado, o coletivo e o tempo. Do latim festus, dia feriado e de celebração religiosa, a festa liga-se, de modo direto ou indireto, ao sagrado. Sejam romarias, ritos de fertilidade, festejos natalícios ou pascais, as festas são formas de lembrar e agradecer ao divino e propiciar futuras graças. E porque a noção de sagrado está vinculada à de profano, isto é, os dois domínios constituem-se na própria oposição, também a festa profana toca a transcendência ao hipostasiar o grupo que a faz. Émile Durkheim (1985Durkheim ( /1912 propunha analisar as celebrações pelo seu efeito de efervescência social. Com isto queria referir--se ao inebriamento que resulta da comunhão de um grupo que reza, dança, canta e faz música em conjunto, que age em uníssono e onde as partes se dissolvem no todo. É neste processo que se substancia a comunidade, que, diz Durkheim, se adora a si própria quando adora os seus totems, ou seja, que se sacraliza na união. Assumindo esta conclusão, o sagrado não está ausente das celebrações profanas; pelo contrário, está na exaltação do coletivo, na exaltação emocional produzida pelos ritos celebratórios. Neste sentido, o sagrado é, sociologicamente, indissociável da communio, a comunhão com o grupo espelhando a comunhão do humano com o sagrado. Como momento Revista Lusófona de Estudos Culturais
doi:10.21814/rlec.2365 fatcat:sdlswveclvettovofai5msv7vy