Lockdown ou vigilância participativa em saúde? Lições da Covid-19

Heleno Rodrigues Corrêa Filho, Ana Maria Segall-Corrêa
2020 Saúde em Debate  
EDITORIAL Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado. ESTA EDIÇÃO DA REVISTA 'SAÚDE EM DEBATE' TRAZ contribuições para entender o mundo da saúde coletiva no momento crítico da pandemia de Coronavírus de 2020 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 -Sars-Cov-2), em que doença em decorrência desse
more » ... ecorrência desse vírus foi chamada de Covid-19. Em editorial anterior, a 'Saúde em Debate' expressou a previsão de que o sucesso do modelo chinês traria críticas inevitáveis para o modelo ocidental de mitigação e ação estatal vertical sem participação popular direta 1 . Na segunda quinzena do mês de março de 2020, discutia-se no Brasil o fechamento indiscriminado das cidades (Lockdown) em oposição à experiência chinesa e coreana de vigilância epidemiológica pela mobilização popular com organização e informação pela base, fechamento seletivo e manutenção dos serviços essenciais de saúde, alimentação e sobrevivência. A China venceu. No dia 3 de março de 2020, o governo chinês divulgou o primeiro boletim com nenhum caso novo de contágio pelo Coronavírus. No mesmo dia, a Itália anunciou a morte de mais de 600 pessoas, caminhando para o pico da epidemia estendida a todo o país depois do início na região da Lombardia, em torno da cidade de Milão. Vários filmes feitos na China durante as ações de vigilância e controle revelaram que entrar e sair de condomínios, metrô, ônibus, locais de compra em Wuhan eram monitorados por membros do Partido Comunista Chinês e membros de Comitês Populares Locais. Esses comitês agiam como autoridades locais sob comando central definindo autorizações para sair para compras e contatos de estrita necessidade. Lembrando que necessidade ou serviço essencial é um conceito de classe segundo o qual o que é pouco para uma minoria é demais para muitos. O controle de saída, trajeto e chegada foi feito na China utilizando aplicativos de redes sociais como 'WeChat', leitura de códigos de identificação padrão 'QR' por telefones celulares, centralização da informação e análise. O serviço estatal chinês forneceu infraestrutura de big data e computação para coleta, armazenamento, processamento e análise de informação visando ao controle da epidemia. Se uma pessoa de Wuhan demonstrasse estar contagiada com sintomas ou sinais após ter andado em um vagão específico do metrô ou feito compras em supermercado, ela seria identificada quanto ao horário, trajeto, contatos e pessoas próximas a serem convocadas para exames e vigilância. Nem George Orwell imaginou um grande irmão tão presente com uma estrutura capilarizada para controlar pessoas e portadores de um vírus letal. No mesmo período, a mortalidade na Coreia foi de 7,9 para mil (0,79%) e acometeu
doi:10.1590/0103-1104202012400 fatcat:fnsjcb4ihngthmwmpjqsttuwem