Arte rupestre: imagens científicas: a constituição dialógica da arte paleolítica do Côa

Sandra Xavier
2000 Antropologia Portuguesa  
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Procura-se demonstrar como os discursos sobre as gravuras foram produzidos no interior da comunidade arqueológica, em interacção com discursos por ela anteriormente elaborados, difundidos e suportados, e, em particular, com os de Leroi-Gourhan, inseridos numa narrativa sobre a história da disciplina que os legitima, e respondem às versões alternativas que se lhes opõem -neste caso, aos discur sos dos especialistas em datação absoluta sobre a cronologia pós-paleolítica das gravuras. Conferindo especial atenção aos processos de visualização, este artigo procura também demonstrar como se constituíram as imagens científicas das gravuras do Côa que estruturam a sua de (per si) difícil percepção. Palavras-chave Arte rupestre, percepção, discursos científicos, arqueologia portuguesa, Vale do Côa Abstract This article is based on the utilisation of Edward Bruner and Phyllis Gorfain's notion of dialogic narration to consider the social and political processes behind the discovery of paleoiithic petroglyphs in the Côa valley. The discourses about the petroglyphs were constituted within the arqueological community, in relation to discourses previously uttered, and especially in relation to the interpretations of André Leroi-Gourhan. However, they have been also constituted in the rela tion to alternative stories; for example in opposition to the discourses that date the A invisibilidade reiterada Quando, no Verão de 1995, visitei pela primeira vez o vale do Côa, na procura de gravuras paleolíticas aí recentemente descobertas, deparei-me com a perplexidade de um homem que me dizia ter nascido numa aldeia próxima. Contava que ao longo da sua vida sentara-se inúmeras vezes junto da fraga na qual diziam, agora, existirem gravuras inscritas, reco nhecendo, desorientado, nunca as ter visto. Um ano mais tarde, no decor rer do meu trabalho de campo, eu viria a deparar-me com a mesma e rei terada afirmação. As gravuras tão noticiadas nos diversos órgãos de co municação social nunca tinham sido visualizadas pelos habitantes de Muxagata. E ainda hoje muitas destas pessoas não as conseguem ver. A possibilidade de ver estas imagens não é portanto imediata, evidente, igualmente acessível a todos. Mas, ao contrário, e como procurarei aqui demonstrar, a visualização das gravuras paleolíticas do Côa foi constituí da através de métodos, técnicas e/ou discursos produzidos no interior da comunidade científica dos arqueólogos'. Ao longo de toda a Idade Moderna, o pensamento científico recla mou para si uma racionalidade a-histórica, a-social, a-cultural e a-política. Ignorava as suas próprias condições sociais de produção para poder afirmar a validade universal dos seus pressupostos. Baseou-se na dicoto mia cartesiana entre a res extensa e o ego cogitans e, assim, garantiu a 1 Arte Rupestre -Imagens Cien tíficas: a constituição dialógica da arte paleolítica do Côa i 05 independência do mundo físico e natural face aos sistemas social e cul turalmente organizados. As ciências naturais conseguiram retirar os enun ciados sobre o mundo do seu contexto social e afirmar a sua autonomia por relação às ciências sociais e humanas. Hoje, questiona-se a dicotomia cartesiana, multiplicam-se os estudos de ciência, a história da ciência ocupa um lugar de destaque entre as ciências sociais, e a análise das condições sociais de produção e difusão do conhecimento científico é cada vez mais frequente. E no interior deste contexto que deve ser inseri do o meu argumento. Para tentar compreender os processos sociais de produção, aceitação e difusão dos discursos arqueológicos sobre as gravuras paleolíticas do Côa, irei recorrer à noção de estória dialógica tal como ela é empregue por Edward Bruner e Phyllis Gorfain (1984) . Estes dois autores, influenciados por Mikhail Bakhtin, consideram que uma estória (ou se quisermos uma narrativa ou um discurso) é produzida dialogicamente -em interacção com um "outro" -no interior de um determinado contexto sociocultural. " [W]e argue that a story cannot be viewed in isolation, as a monologic static entity, but must be seen in a dialogic or interactive framework" (Bruner e Gorfain 1984: 57). Um dado discurso interage, por exemplo, com os discursos anteriores, com a história e a sua formulação narrativa e com discursos alternativos e críticos que se lhe opõem (cf. Idem: 60, 66). "Dialogic narration is not simply a dialogue or a debate but a polyphonic discourse based on tellings, retellings, or references to important cultural narratives. Any particular telling of the (...) story then resonates against previous and future tellings, against its own past centuries (...), against metonymic sites, (...), and against stories that embody alternatives" (idem: 68). Bruner e Gorfain inserem um discurso no interior de uma tradição discursiva e de uma dada comunidade, mas estes são concebidos como um "outro" com o qual o discurso se relaciona dialogicamente de uma forma processual e plural. "Our aim, then, is to develop the concept of dialogic narration, to contribute to narrative theory by introducing a processual perspective, and to root the narrative process in a society without reducing it to a mere reflection of society" (idem: 60). Defensores de dife rentes versões da realidade, competem entre si pelo espaço discursivo, pelo direito a contar a estória (cf. idem: 60). Bakhtin, e com ele Bruner e Gorfain, defende que existem versões da estória (ou se quisermos da rea lidade) autorizadas, com uma autoridade que lhes advém da posição do
doi:10.14195/2182-7982_17_7 fatcat:h3txltynxnaybjwifqbko5itmq