A CONCEPÇÃO DE VIDA EM GREGÓRIO DE NISSA: ENSAIO DE APROXIMAÇÕES COM AS CIÊNCIAS DA VIDA

LINA BOFF, EVA APARECIDA REZENDE DE MORAES E PAULA
2011 ATUALIDADE TEOLÓGICA  
Introdução Este artigo busca ser -como o próprio título indica -uma tentativa de leitura interdisciplinar sobre a vida, priorizando, neste exercício, a teologia e algumas ciências -como a biogênese, por exemplo. Nós, as autoras, acreditamos na possibilidade de convivência e, inclusive, de diálogo, entre fé e ciência. Acreditamos que, em muitas situações, fé e ciência andam lado a lado, possuindo o mesmo objeto, mas diversificando-se em seus métodos de pesquisa e intencionalidades. É acreditando
more » ... ades. É acreditando nessa possibilidade real que escrevemos esse artigo. Perseguindo esse objetivo, buscamos, assim, um campo epistemológico comum às ciências teológicas e científicas. Encontramos alguns interessantes entrelaces, mas optamos pelo tema da vida. Ele é um campo comum de pesquisas, tanto para a teologia, quanto para as ciências. Perguntas existenciais -como: Quem somos nós?, De onde viemos?, Para onde vamos?, Qual o sentido da vida?, Qual a finalidade da morte? -Fazem parte da cotidianidade humana e, portanto, são objeto de pesquisa teológica, científica e tecnológica. Realmente, a revelação bíblico-cristã nos informa que Deus é vida. Mais que isso: Deus é amor! Portanto, se Deus é vida, é vida "boa", vida com sentido. Assim, ao longo das páginas da Tradição, encontramos essa definição e o desenvolvimento desse tema. Também para a ciência, a vida tem se revelado -principalmente nos últimos cem anos -um desafio e um 10.17771/PUCRio.ATeo.18399 Atualidade Teológica Revista do Dpto. de Teologia da PUC-Rio / Brasil 318 Atualidade Teológica Ano XX n.º 26 maio/agosto 2007 317 1 -Cf. BARR, R., Breve Patrologia, Brescia, Queriniana, p. 99-100. Gregório de Nissa, ativo entre 368-390, segundo dos grandes padres capadócios é denominado "o Teólogo". Pelo estilo eloquente de seus discursos de doutrina.. Conhecia bem a literatura grega e líder na polêmica anti-apolinista que negava a Cristo uma alma humana; ver também ALTANER, B., -Stuiber, A., Patrologia. Vida, obras e doutrina dos Padres da Igreja, Rio de Janeiro, Lunen Christi, 2003, p. 306-311. 10.17771/PUCRio.ATeo.18399 Atualidade Teológica ano XI nº 27, setembro/dezembro 2007 319 Revista do Dept.º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica 318 Primeira Parte: 1. Traços biográficos O século IV foi um tempo rico para a patrística, que já estava em ato desde o século III. Entre um século e outro corre uma corrente de continuidade e, ao mesmo tempo, de avanço. Esse avanço tem várias expressões. Aquela que se constituiu em um marco histórico da Igreja dos Padres Gregos se expressa no Concílio Ecumênico de Nicéia 2 , o qual se realiza em 325, quando, pela primeira vez, a Igreja Universal pronunciou uma definição dogmática, formalmente em sentido único, chamada evolução do dogma 3 . O segundo grande padre capadócio, Gregório, foi bispo de Nissa, uma aldeia de pouca importância na Ásia Menor. Nasceu entre 335 e 340 e morreu em torno ao ano 394. Deixou várias obras, dentre as quais se destacam as de natureza bíblica. Por volta de 385-386, coloca-se uma obra de maturidade, a "Grande Catequese", suma doutrinal destinada aos mestres que, em suas instruções, precisam de um sistema. Partindo da "Grande Catequese", esse sistema consiste na meditada síntese teológica das doutrinas fundamentais examinadas e formuladas no Concílio de Constantinopla 4 (381), e agora revisadas e formuladas nas categorias culturais do tempo do bispo nisseno 5 . Segundo alguns autores e comentaristas dos padres capadócios, o bispo nisseno foi um dos pensadores mais originais que influenciou profundamente a espiritualidade oriental. A base do seu pensamento é quase exclusivamente bíblica 6 . Tímido e introvertido, revela-se na sua inteireza quando comenta textos bíblicos e cristológicos. O seu tratado sobre a perfeita figura do cristão, fundamenta-se numa série de textos cristológicos paulinos 7 . 2 -Cf. SESBOÜÉ, B., La divinitá Del Figlio e dello Spirito Santo, em Storia dei dogmi, I-VIII secoli, Monferrato, Piemme, 2000, p. 222ss. Gregório de Nissa se empenhou em discussões de grande rigor para ver em que sentido o Espírito era uma pessoa e qual o seu lugar no mistério trinitário. Suas investigações culminaram
doi:10.17771/pucrio.ateo.18399 fatcat:gbm4msrv3je2tdku3hitzgqxgy