Trajetórias divergentes da ciência na Argentina e no Brasil

Silvia Figueiroa
2002 História, Ciências, Saúde: Manguinhos  
O livro de Hugo Lovisolo, escrito numa prosa clara, fluente e não uniforme, ao mesmo tempo que conceitualmente precisa, parte de um tema rico e de um problema oportuno: realizar um estudo comparativo entre o desenvolvimento científico da Argentina e do Brasil, que, apesar das muitas semelhanças, seguiram caminhos distintos. O autor se pergunta, já desde o início, o que interessa às comunidades científicas de muitos países, particularmente as latino-americanas: historicamente, desde a conquista,
more » ... desde a conquista, os vizinhos próximos herdaram tradições religiosas, políticas, culturais e posições econômicas estruturais bem mais semelhantes do que na comparação com os vizinhos distantes ... . Diante do pano de fundo das semelhanças, emerge então com naturalidade a questão geral: como e por que foram geradas as diferenças (p. 9). O período tratado vai, grosso modo, de 1900 a 1970, mas o século XIX acaba sendo englobado por conta da análise, imprescindível, da influência do positivismo, com suas nuanças e matizes, em ambos os países. As 132 páginas dividem-se em cinco capítulos, além da Introdução, na qual o autor apresenta o livro, suas intenções e premissas, e adiciona os agradecimentos. Sua premissa básica é que, em princípio, desenvolvimento econômico e desenvolvimento científico e cultural caminham juntos. Nos dois casos sob análise essa relação não é direta, o que conduz a um paradoxo que terá função heurística, como explica o autor já na primeira página. Outra premissa importante é que comparações com não-vizinhos, principalmente com os freqüentemente citados Estados Unidos, Inglaterra e França, por haverem sido já muito exploradas, estariam agora, de certo modo, esgotadas como desafio intelectual, e portanto valeria a pena apostar na comparação com a América Latina. No primeiro capítulo, Positivismo: influências e interpretações, Lovisolo explora a penetração do ideário positivista nos dois países levando em conta um duplo movimento: de um lado, as diferenças entre as vertentes teóricas escolhidas e, de outro, as diferentes formas de apropriação desse conjunto de idéias, que são lidas em função dos respectivos processos históricos ao mesmo tempo que fazem uma leitura desses mesmos processos. No segundo capítulo, Einstein, uma viagem, duas visitas, o autor discute as profundas diferenças entre as estadas de Albert Einstein na Argentina e no Brasil, embora ocorridas em seqüência temporal, ressaltando a partir disso a diversidade dos contextos políticos, sociais e
doi:10.1590/s0104-59702002000100014 fatcat:lop6emgb4ffczoip6hmjrse65y