Veneno e antídoto: ciência, tecnologia e os riscos para o homem

Carlos Machado de Freitas
1996 História, Ciências, Saúde: Manguinhos  
Nas sociedades contemporâneas, a ciência e a tecnologia converteram-se em poderosas forças estratégicas, e tornaram-se eixos de grandes transformações na saúde, no meio ambiente e em qualquer outra esfera da vida social. A magnitude dessas transformações faz com que não sejam mais responsabilidade apenas dos pesquisadores em seus laboratórios. Passam a envolver inúmeros atores e interesses: a grande indústria, os sindicatos, os militares, os governos, os grupos de cidadãos, enfim, todos os
more » ... nfim, todos os componentes da sociedade. Tais características da ciência e tecnologia fazem com que os laboratórios, espaços por excelência para a geração de fatos científicos e inovações tecnológicas, sejam também o locus estratégico da ação política moderna, de forma direta e indireta, de modo visível ou não para os atores envolvidos. A utilização em larga escala de substâncias químicas em processos de produção e em produtos é exemplo disso. O desenvolvimento da indústria química e da pesquisa visando a produção sintética de novas substâncias, que já vinham se acentuando desde fins do século XIX, intensificaram-se a partir da Segunda Guerra Mundial. Nos lares, no trabalho industrial e agrícola, nos rios e mares, no chão e na atmosfera, em todo o planeta encontramos substâncias químicas de origem antropogênica, criando muitas vezes riscos à saúde, ao meio ambiente e ao próprio futuro das sociedades humanas. Se por um lado entram na composição dos medicamentos usados para tratar de doenças, por outro são responsáveis por milhares de casos de intoxicação a cada ano, contribuindo para causar lesões, mortes ou efeitos teratogênicos, como na tragédia da talidomida. O mesmo agrotóxico que elimina pragas de plantações, viabilizando latifúndios monocultores elimina a saúde ou a vida dos trabalhadores e famílias expostas à sua ação. O clorofluorcarbono utilizado em aparelhos de refrigeração -geladeiras e condicionadores de ar -alarga dia a dia o buraco na camada de ozônio, contribuindo para o aumento na incidência de casos de câncer de pele. A mesma situação se verifica em cenários diferentes, como na biotecnologia e na engenharia nuclear. Paradoxalmente, é na própria ciência e tecnologia que se buscam as soluções para os inumeráveis riscos que ameaçam as sociedades contemporâneas e seu futuro. Tecnologias limpas, novas formas de tratar doenças, novos métodos de identificação, análise e monitoramento de riscos são freqüentemente anunciados como soluções na grande imprensa e em periódicos científicos. Alguns céticos consideram que a ciência e a tecnologia serão incapazes de resolver os problemas que engendram, sem trazer novos problemas. Argumentam outros que não se pode abandoná-las, que não há regresso possível a um passado idílico. Defendem, alguns destes, a transformação do atual paradigma, a busca de uma nova ciência e de novas tecnologias. As posições variam bastante, indo do mais extremado otimismo ao mais negro pessimismo. O debate prossegue sem perspectivas de solução, mas com uma característica importante: não é mais um debate apenas acadêmico, entre pares dos mesmos campos. Envolve inúmeros atores implicados na preservação da saúde, do meio ambiente e da sociedade como um todo. Essas e outras questões são discutidas neste debate, de que participam profissionais de destaque em nosso país e no exterior. Arsênio Oswaldo Sevá Filho é professor do
doi:10.1590/s0104-59701996000300007 fatcat:ej5nxooqlbhubgcg445oyhj7m4