Espírito rixoso: a face obscura da "Memórias de um sargento de milícias"

Emmanuel Santiago
2018 Teresa  
otsuka, Edu Teruki. Era no tempo do rei: atualidade de Memórias de um sargento de milícias. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2016. Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é uma das obras mais singulares do romantismo brasileiro e, desde que Antonio Candido lhe dedicou o ensaio "Dialética da malandragem", 1 ocupa uma posição de destaque em nossos estudos literários. Tangenciando tanto a ortodoxia marxista quanto o imanentismo estruturalista, o ensaio lançou as bases para
more » ... çou as bases para uma análise da forma literária como elaboração estética dos nexos estruturantes da realidade social, convertidos em princípio que, intrínseco à obra, empresta coerência a seus elementos estilísticos e ficcionais. Edu Teruki Otsuka, em Era no tempo do rei: atualidade de Memórias de um sargento de milícias, insere-se na tradição iniciada com o ensaio de Candido. Porém, se dá continuidade à sua ideia de forma literária, não se restringe a ratificar as conclusões do mestre, ultrapassando as limitações da perspectiva deste e aprofundando a compreensão de Memórias... como romance que configura esteticamente a experiência de certo segmento da cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do século xix, apontando para circunstâncias gerais do regime patriarcal-escravista. Em "Dialética da malandragem", Candido propõe Memórias... como romance representativo, no qual a experiência social dos estratos médios da população carioca, nos estertores do período colonial, é convertida em princípio estruturante da obra. Em seu romance, Manuel Antônio de Almeida estabelece um recorte restrito, excluindo escravos e membros da elite (com algumas exceções), e focaliza as classes intermediárias, formadas basicamente por homens livres pobres. Somos remetidos, então, à Formação do Brasil
doi:10.11606/issn.2447-8997.teresa.2018.148046 fatcat:hwvmf6xm4zgqtkhjbjt52atsdy