O problema da agência na ciência moderna: cinco séculos de debates e controvérsias

André Vasques Vital
2019 História, Ciências, Saúde: Manguinhos  
The restless clock (Riskin, 2016) é a mais recente obra da historiadora das ciências Jessica Riskin, professora da Universidade de Stanford e autora também das obras Science in the age of sensibility (2002) e Mind out of matter (2007). O presente livro analisa cinco séculos de intensos debates sobre agência: a capacidade intrínseca de qualquer entidade, seja ela humana ou não humana, de agir no mundo. A autora mostra como a emergência de santos, demônios, divindades gregas e criaturas autômatas
more » ... criaturas autômatas no fi m da Idade Média e a visão mecanicista de mundo do realismo cartesiano no século XVII originaram um dos maiores problemas ainda sem solução no âmago da ciência moderna: o das origens da vida e do movimento das coisas. São variados os personagens dessa longa viagem pelos meandros do debate sobre agência: relojoeiros, autômatos, médicos, fi lósofos, matemáticos, engenheiros, androides, biólogos, teólogos, geneticistas, robôs, só para mencionar alguns. As máquinas são personagens ativos nessa história, favorecendo com suas presenças materiais e seus movimentos, em meio a olhares de espanto, admiração e curiosidade, a emergência de uma série de análises e debates sobre as origens da inteligência, dos movimentos, da fi siologia dos seres vivos, entre outros. Questões que permeiam esses debates são: a origem dos movimentos está em uma agência externa ao mundo (regida por um designer divino, por exemplo)? A origem dos movimentos e da vida está na própria natureza (sendo o mundo composto por entidades que possuem agência)? Ou os movimentos do mundo exibem uma agência aparente, mas são regidos por aleatoriedades? O livro aborda essas controvérsias ao longo de dez densos capítulos que perfazem uma extensa viagem aos meandros das origens e da evolução da ciência moderna. Essa viagem começa com a emergência dos autômatos na Europa em meados do século XIV, que viraram presença marcante em igrejas, catedrais, palácios e jardins reais (capítulo 1). Esses autômatos terão um impacto signifi cativo nas ideias mecanicistas sobre o corpo e a
doi:10.1590/s0104-59702019000300019 fatcat:pw4357roc5gtxfmhc6rzhngtre