Saúde e crise da modernidade (caminhos, fronteiras e horizontes)

André Cezar Médici
1992 Saúde e Sociedade  
O objetivo deste texto é discutir algumas tendências da medicina, a partir da análise de sua evolução ao longo do período que, do ponto de vista histórico, caracteriza a modernidade e sua crise. A medicina é, desta forma, avaliada segundo as óticas da economia, das relações do poder, do desenvolvimento científico e tecnológico e da linguagem. A questão da economia remete a análise para a questão dos mercados e das formas de concorrência e crescimento capitalista assumidas pela medicina ao longo
more » ... a medicina ao longo de sua trajetória A questão do poder remete a análise das instituições de saúde e das formas de organização do trabalho no setor. A questão da ciência procura avaliar o espectro de formas de produção do conhecimento no setor, bem como seus impactos na cobertura e na eqüidade do acesso às condições de saúde e assistência médica. Por fim, a questão da linguagem marca a análise de como a tecnificação extrema da medicina vai progressivamente caracterizando campos semânticos próprios a cada especialidade, dificultando o uso de teorias totalizadoras para explicar as relações internas no seio da produção de conhecimento no setor. "O pensamento filosófico é hesitação contínua, muito surda, mesmo quando tem as pomposas garantias dogmáticas. Mesmo quando avança, recua em si mesmo., Diz-se que é uno e ele se despedaça" (BACHELARD, "Fragmento de um Diário do Homem") O controle do corpo e da mente constitui uma das mais antigas aspirações da humanidade. Qualquer que fosse o motivo para tal -poder, prestigio, riqueza material, conhecimento, tranqüilidade espiritual, a busca da cura e da imortalidade, reconhecimento por parte do divino, etc. -dedicar-se à tarefa de prevenir e curar doenças físicas ou mentais tem sido o cotidiano de pessoas, seitas e instituições e, mais recentemente, de indústrias e movimentos sociais. Apesar dos inegáveis avanços alcançados ao longo desta estratégia, a atenção à saúde, individual ou coletiva, sempre foi obtida de forma assimétrica do ponto de vista social. Até mesmo na caminhada que se inicia com a modernidade e se estende até hoje, muitos êxitos tem sido obtidos na arte de prevenir e curar, mas o progresso técnico em saúde não tem propiciado a incorporação dos segmentos sociais excluídos com a mesma vitalidade que gera inovações nos meios diagnósticos e terapêuticos. Portanto, o mérito em alcançar controle crescente sobre o corpo e a mente, obtido a partir da medicina moderna, fica obscurecido parcialmente pelo distanciamento progressivo entre populações cobertas, ricas e sadias e populações descobertas, miseráveis e insanas, ao nível mundial. Em medicina, reproduz-se um velho dilema latente em todos os paradigmas da modernidade, expresso na dicotomía entre "crescimento x distribuição" ou ainda entre "progresso técnico x eqüidade". Este artigo pretende buscar o mapeamento dos caminhos traçados pela medicina moderna, bem como de suas fronteiras e horizontes, quer do ponto de vista da ampliação do domínio do corpo e da mente, através do conhecimento, da ciência e da técnica; quer no que diz respeito ao alargamento do espectro de acessibilidade aos serviços de saúde.
doi:10.1590/s0104-12901992000200004 fatcat:4umjrnagbvdd7i4pa2cicyblwy