A antropofagia na África equatorial: etno-história e a realidade do(s) discurso(s) sobre o real

Sílvio Marcus De Souza Correa
2008 Afro-Ásia  
Introdução Os primeiros relatos de viagem sobre a África negra fizeram alusão à suposta antropofagia tanto de grupos autóctones quanto alóctones. Em meados do século XV, o veneziano Cadamosto esteve, por duas vezes, a mercadejar pela costa ocidental africana e comentou que "lá todos sabem que os cristãos são antropófagos e por isso eles compram escravos para comê-los". 1 Na crônica de Zurara, a violência das razzias e das capturas dos nativos pelos portugueses ao longo da costa da Guiné permite
more » ... ta da Guiné permite inferir o impacto dos primeiros contatos e os temores dos nativos provocados pelos primeiros resgates. 2 Além das capturas em solo africano, alguns nativos eram por vezes carregados pelos europeus como * Professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC); http://silviomscorrea.siz.com.br; scorrea@unisc.br. O autor agradece os pertinentes comentários e as sugestões bibliográficas do parecerista anônimo de Afro-Ásia. Sua leitura acurada permitiu melhorar a versão final do presente artigo. 1 Alvise Cadamosto, "Reise nach Westafrika", in G. Pögl e R. Kroboth (orgs.), Heinrich der Seefahrer oder die Suche nach Indien (Darmstadt, Erdmann Verlag, 1989), p. 103. Todas as demais citações de relatos de viagem, em inglês, francês e alemão, foram traduzidas pelo autor. Não foram inseridos os trechos no original em notas de rodapé para não carregar o texto e mantê-lo dentro dos limites das normas editoriais. 2 Gomes Eanes de Zurara, "Die Eroberung von Guinea auf Befehl des Infante Don Henrique", in Pögl e Kroboth (orgs.), Heinrich der Seefahrer oder die Suche nach Indien. E assim havia açougues de pessoas como de animais; tanto que faltava de comer os traziam e matavam como se fossem vacas ou carneiros. Vendiam os Manes alguns por pouco preço, e quando os vendiam, se os 3 John Thornton, A África e os africanos na formação do mundo atlântico, Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, [1508] 1991, p. 624. Neste artigo, foram utilizadas as versões portuguesas dos nomes dos grupos étnicos africanos e, quando necessário, elas foram pluralizadas (i.e., bulons). Quando não havia uma versão portuguesa do etnônimo, foi empregada a denominação francesa, pois os relatos de viagem e as obras etnográficas foram, na sua maioria, consultadas no original em francês ou em edições francesas. Por exemplo, utilizamos a versão francesa pahouin para designar um dos grupos étnicos do Gabão, correspondente aos pagwes, em alemão, e aos pamues, em espanhol. Em relação aos fangs, um dos subgrupos dos pahouins, há pequenas variações ortográficas como m'fang ou fan, que também foram desconsideradas. 6
doi:10.9771/aa.v0i37.21151 fatcat:t6jrwuz3rfhopoie4ji5jqergm