Ética e cultura

Ismael Mendes
2020
A intercomunicabilidade das culturas e a ética Emmanuel Lévinas tem um modo de pensar original face à tradição do pensamento ocidental. Enquanto este pensamento se centra no poder absoluto da razão, razão que pretende abarcar o ser universal e absoluto -identificando-se pensar e ser (bastar-nos-ia pensar no expoente máximo do racionalismo/idealismo que é a filosofia hegeliana) -, Lévinas diz-nos que a filosofia primeira não é ontologia (estudo do ser) mas ética. Aquela terá conduzido ao
more » ... onduzido ao totalitarismo, ao esmagamento do Outro pela razão do «eu», enquanto a ética de Lévinas se funda na relação primordial entre o Outro ou Outrem e o «eu». Trata-se de uma relação assimétrica porque o Outro é Infinito, é Alteridade irredutível à mesmidade do «eu». O outro perturba a consciência porque se lhe escapa, não é assimilável pelo «eu»; é sempre o Outro que me ordena, que é chamamento e sobre o qual me sinto absolutamente responsável. Ninguém me pode substituir na responsabilidade pelo Outro; ninguém lhe pode responder na minha própria vez. É ao outro que o «eu» deve a sua consciência de si, a sua ipseidade. Mas esta ipseidade não é solipsismo do tipo do Cogito cartesiano; esta ipseidade tem o seu fundamento na alteridade do Outro. Este outro é voz, voz interior. Não é visível nem objeto da consciência porque é-lhe sempre transcendente, total alteridade irredutível ao «eu», o qual lhe deve total
doi:10.34632/humanisticaeteologia.2012.8884 fatcat:jv5wkfb7ovajlhganq3liorexi