A voz de Deus e os livros homens

Jeanne Marie Gagnebin
2012 Remate de Males  
Mesmo que boa parte dos teóricos da autobiografia datem seu nascimento, enquanto gênero literário, do século XVIII 1 , isto é, a partir da eclosão do indivíduo moderno que se apreende a si-mesmo na auto-narração, o estudo das Confissões de Santo Agostinho já nos revela, de maneira paradigmática, que a escrita de si adquire seu sentido autêntico quando não é somente memória e escrita de si mesmo, mas também, e talvez em primeiro lugar, testemunho a respeito do(s) outro(s). Vale a pena lembrar
more » ... e a pena lembrar que o conceito de "testemunho", em sua origem histórica, remete não só ao domínio do jurídico, mas também ao do religioso e do teológico. Se as Confissões de Rousseau encenam a defesa de um réu injustiçado (Jean-Jacques) e o juízo da posteridade, a obra de Agostinho, palimpsesto retomado e transformado pelo cidadão genebrino, só pode apelar a leitores futuros porque se compreende como testemunho da fé. Simultaneamente confissão dos pecados, de fé e de louvor 2 , as declarações de Agostinho não precisam provar sua veracidade: Deus, interlocutor principal, recebe a narração como oferenda, mas já conhece seu conteúdo, aliás melhor que o próprio autor, não podendo, portanto, ser enganado por eventuais ardis literários. Essa onisciência do "Tu" privilegiado, de Deus, garante, de uma só vez, a sinceridade do autor e a confiança do leitor: a rigor, não precisa de um "pacto autobiográfico" entre autor e leitor, já que sua interlocução confiante repousa no entendimento divino, benevolente e anterior à comunicação humana. Essa garantia divina, essa certeza transcendental, Rousseau não a possui mais, mesmo que ainda a evoque na primeira página de suas Confissões, na figura do juízo final; condenado à sinceridade, Rousseau tem o dever e a pretensão de "tudo dizer", acarretando paradoxalmente a crescente desconfiança de seus leitores, num círculo infernal de suspeita e justificação. Agostinho pode deliberadamente renunciar a uma reconstrução memorialística exaustiva e escolher suas lembranças em função de sua estratégia textual, porque parte do pressuposto que Deus o conhece totalmente, muito melhor que ele próprio o poderia conseguir. Sua narração deve, portanto, testemunhar muito mais da onisciência e da bondade divinas do que fornecer o relato completo de sua vida humana, completude fundamentalmente impossível e inútil. Não é necessário provar a sinceridade de sua narração, já que Deus sabe melhor que Agostinho o que esse sabe de si e, igualmente, o que de si ignora. Confessarei, pois, o que sei de mim, e confessarei também o que de mim ignoro, pois o que sei de mim, só o sei porque Vós me iluminais; e o que ignoro, ignorá-lo-ei somente enquanto as minhas trevas se não transformarem em meio-dia, na Vossa presença. (X, 5 (7)) 3
doi:10.20396/remate.v26i1.8636060 fatcat:tzl3avchhnhxtcb4odfbv5yzuy