Relações étnico-raciais e Educação no Brasil

Ana Cláudia Carvalho
2013 Atos de Pesquisa em Educação  
RESENHA FONSECA, Marcus Vinícius; SILVA, Carolina Mostaro Neves de; FERNANDES, Alexsandra Borges (Org.). Relações étnico-raciais e Educação no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2011, 215p. O livro "Relações étnico-raciais e Educação no Brasil", organizado por Marcus V. Fonseca, Carolina M. Silva e Alexsandra B. Fernandes, é resultado de seminários realizados no ano de 2009, na Faculdade de Educação da UFMG, pelo projeto: "Pensar a Educação, Pensar o Brasil". Esse projeto, desde 2007,
more » ... , desde 2007, aborda a reflexão a favor da escola pública na consolidação da democracia brasileira. No terceiro ano do projeto, os seminários privilegiaram um tema que tem mobilizado os debates educacionais: as relações étnico-raciais e a Educação no Brasil, focando em novas práticas escolares, na expectativa de minimizar a discriminação e o preconceito na escola. Negros, índios e imigrantes constituem os grupos analisados por pesquisadores de vários campos do conhecimento nesta obra que alia educação e diversidade. Em seis capítulos são estabelecidas discussões coerentes e a temática é analisada sob o ponto de vista antropológico, histórico e sociológico. Um dos principais méritos da obra está presente nos questionamentos consistentes que permitem suscitar grandes reflexões no leitor, como as que seguem. Por que só recentemente é que as questões sobre o lugar do negro ganham espaço? A legislação é suficiente para estabelecer esse lugar? Por que há resistência contra o sistema de políticas afirmativas? Por que pessoas brancas não costumam se sentir pertencentes a um grupo étnico-racial? A história tradicional que nos é contada pode ser considerada a correta? Podemos afirmar que no século XIX a maioria dos que estavam matriculados nas escolas eram brancos, sem pensar em quem os classificou e quais critérios foram utilizados? O que é ser negro na sociedade atual? É possível ressignificar a tradição nativa dos indígenas e, ao mesmo tempo, apropriar e transformar a técnica e o conhecimento ocidental? Por que houve incentivo para a vinda de imigrantes europeus para o Brasil? A escola ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO -PPGE/ME esteve e está engajada em um clima favorável à pluralidade cultural? Essas são questões que norteiam discussões recorrentes na obra e que são inerentes a fatos e situações que perpassam o nosso cotidiano de maneira peculiar. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, no Capítulo 1 afirma que as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana trazem implicações que precisam ser levadas em consideração. E que, para o processo de educação das relações étnico-raciais ser desencadeado, executado e avaliado, é necessário compreender como os processos de ensinar e aprender vêm acontecendo desde o "descobrimento" do Brasil. O texto ressalta aspectos históricos relacionando-os com pontos que contrastam a necessidade com as dificuldades de ensinar, enxergar e lidar com "os diferentes". Em relação ao processo de ensino-aprendizagem frente às relações étnicoraciais, Nilma Lino Gomes, no Capítulo 2, aborda questões relevantes que podem interferir direta ou indiretamente nesse processo, como: a formação dos professores, ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO -PPGE/ME paulatinamente o Estado brasileiro vem trazendo o tema para o centro da agenda política. E que, portanto, só recentemente é que tais discussões foram colocadas em pauta. Ruben Caixeta de Queiroz, no Capítulo 5, aborda aspectos relevantes sobre a escolarização indígena em defesa desses sujeitos que fazem parte da construção da sociedade brasileira. O autor critica o fato de a escola no meio indígena significar um instrumento poderoso de propagação do valor e da ética do mundo ocidental, uma vez que ela vem se configurando como lugar onde se deve aprender a "cultura do branco". Assim, considera que, neste percurso de educação "escolarizada", há uma profunda transformação nos modos de vida da população indígena: na sua comunicação, na política, na poesia, dentre outros aspectos da cultura. Queiroz analisa o lugar ocupado pela instituição escola em aldeias de índios Waiwai e índios Yekuana, por meio de dois estudos etnográficos realizados por ele. No texto, há passagens interessantes que descrevem esse processo e permitem identificar grandes desafios para a contemporaneidade. Como por exemplo: a "escola" e os "educadores" indígenas, em um processo complexo, conseguirem trabalhar de modo que o conhecimento tenha sentido para a cultura indígena, a fim de ressignificar a tradição nativa e, ao mesmo tempo, apropriar e transformar a técnica e o conhecimento ocidental. É uma tarefa difícil e que pode parecer paradoxal, contudo não é impossível de ser realizada. O Capítulo 6 contém informações que contribuem para debates e pesquisas sobre os processos de escolarização e as formas de tratamento da diversidade na primeira metade do século XX. Lúcio Kreutz contextualiza o início e os possíveis motivos da imigração no Brasil, apresentando dados que caracterizam as imigrações: alemã, italiana, polonesa e a japonesa, destacando diferenças e semelhanças entre elas. Ao longo desse processo, núcleos etnicamente homogêneos foram formados e, consequentemente, as escolas eram étnicas, uma vez que o currículo retratava as dimensões culturais próprias de cada uma. Houve diferenças entre escolas étnicas urbanas e rurais. E ambas tiveram a forte presença das igrejas cristãs, católica e luterana, sendo denominadas "escolas étnicocomunitárias, com acentuada conotação confessional" (p.197). No período republicano houve um movimento de crescente tensão entre igrejas, imigrantes e Estado, e esse movimento é situado por Kreutz com o objetivo de mostrar o rumo ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO -PPGE/ME dessas escolas no século XX. Atualmente, segundo o autor, encontramo-nos em contexto histórico com crescente sensibilidade para a questão da identidade/diferença. Estamos mais atentos para as relações entre educação, cultura e sociedade, avançando no entendimento de que a multiplicidade de grupos étnicos no país não é um mal, como foi considerado em várias situações e em vários períodos históricos. De maneira geral, através de exemplos de pesquisas históricas e pesquisas etnográficas, além das respectivas discussões, o livro justifica o seu propósito, permitindo enxergar como o processo educacional, em suas vicissitudes, é importante e necessário a todos os sujeitos, sem distinção de raça/etnia. Por conseguinte vale ressaltar que a Educação pode ser sinônimo de preparação para a vida sim, como diriam alguns intelectuais, entretanto é preciso considerar o indivíduo na sua totalidade e respeitá-lo na sua diferença. Desta forma, afirma Silva, no primeiro capítulo do livro (p.31): "[...] não é somente com a inteligência que se tem acesso a conhecimentos [...] é com o corpo inteiro -o físico, a inteligência, os sentimentos, as emoções, a espiritualidade -que ensinamos e aprendemos, que descobrimos o mundo." A obra, como dito inicialmente, contém seis capítulos escritos por diferentes autores. Portanto, é compreensível que alguns temas e conceitos não sejam aprofundados, o que não deixa de ser positivo, pois instiga o leitor a buscar novas explicações. Em cada capítulo são estabelecidas discussões que contribuem de forma significativa para o que a obra se propõe: trazer reflexões acerca da temática a fim de tentar minimizar o preconceito e a discriminação. Apesar de dedicar quatro capítulos para a questão do negro e apenas um para o índio e outro para o imigrante, os autores conseguem mostrar a influência da educação no interior desses grupos e a importância do respeito e não apenas tolerância à diversidade cultural. Assim, como afirma Silva (no capítulo 1), as sociedades multiculturais terão dificuldades de se tornarem democráticas se não lutarem contra injustiças, como opressões e discriminações. Nesse sentido, a obrigatoriedade do ensino de história e cultura Afro-Brasileira e Africana e suas indagações aos processos educacionais poderá ser um dos caminhos para a construção de subjetividades mais democráticas. No entanto, a legislação, por si só, não é o bastante. Ao pensá-la ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO -PPGE/ME como instrumento que faz parte dessa luta exaustiva, é preciso cautela para não interpretá-la "romanticamente". É importante pensar em ações que podem contribuir para colocá-la em prática, efetivá-la. A legislação consiste num passo, mas não é o trajeto completo, pronto e acabado. Há muito que se fazer e a obra é bastante consistente em proposições que seguem nessa direção. Após a leitura dos capítulos que remetem à questão do negro, é perceptível a contradição existente na sociedade contemporânea: o novo racismo se configura em um discurso antirracista, mas ainda entende o negro como ser inferior. O racismo no Brasil é velado. No livro, mais especificamente no capítulo 4, Gonçalves relata uma passagem sobre essa questão: "Em um país no qual uma criança branca chama uma mulher negra de macaca e de carvão, tendo o consentimento do pai, sob risos debochados, e ainda se ouvem, diante de um episódio aparentemente ingênuo, autoridades, intelectuais, especialistas dizendo que isso não deve ser visto como indício de racismo, mas como um ato isolado que com o tempo passa, só há uma saída: abandonar este mundo, porque nenhuma luta vale a pena" (p.139). O seu discurso é compreensível, pois mostra sua indignação e sua desesperança diante dos fatos. Contudo, deve-se considerar que mudanças só acontecem por meio de lutas, e que a desistência é um instrumento determinante para manter o preconceito e a discriminação racial na sociedade. Cabe, nesse momento, então, estabelecer uma relação analógica. No livro é dito que as consequências do que aconteceu no passado não são imediatistas, muito pelo contrário, são duradouras, pois se perpetuam ao longo do tempo, em diferentes contextos e de várias formas. Nessa mesma lógica podemos nos remeter ao presente e perceber que os atos de hoje irão influir no futuro, sejam eles positivos ou negativos. Portanto para todos aqueles que de alguma forma almejam e lutam por um Estado baseado na igualdade dos indivíduos não só perante a lei, mas também na garantia de oportunidades, a utopia se faz necessária. Não no sentido de interpretar esses ideais como projetos irrealizáveis, mas sim como objetivos, para que a luta contra qualquer tipo de discriminação e a repulsa ao obscurantismo advindo de senso comum não se ausentem dessa sociedade dotada de complexidades. ANA CLÁUDIA CARVALHO ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO -PPGE/ME
doi:10.7867/1809-0354.2013v8n3p1049-1055 fatcat:pmaaghmsmbfvvdkkmcv37hn5nq