Quando a exceção se torna regra totalitária: o cruzamento do movimento escola sem partido com a persecução aos estudos de gênero e à educação para as sexualidades

Fabiana Carvalho
2020 Revista educação e linguagem  
Resumo: O presente trabalho, em caráter ensaístico e ancorado em teorizações pós-críticas e feministas, objetiva problematizar o vínculo entre o Programa/Movimento Escola sem Partido (ESP) e o combate a uma suposta Ideologia de Gênero, apontando a criação de práticas de vigília, controle e normatização que se debruçam sobre os gêneros e as diferenças sexuais e instauram uma potência subjetivadora do medo nas pedagogias escolares e culturais. Como foco analítico, estabelece um percurso
more » ... percurso genealógico ao considerarem decorrência da leitura de Projetos de Lei, das proposições do website do movimento e da atualidade do contexto brasileiro, como os discursos religiosos fortalecem a perseguição aos estudos de gênero e se interpõem como política no país. Traz em seu escopo a discussão voltada para a ideia de que o ESP é uma biopolítica de exceção, ou seja, um modo de governamentalidade criado a partir do deslocamento de pensamentos e regras de grupos particulares, que se interpõem como o pensamento de todos os grupos sociais e como força de lei sem, contudo, constituir-se como lei. Discute como tal modo de governo congrega-se às narrativas políticas e religiosas e se funde ao ideário de uma Ideologia de Gênero que, supostamente, corrompe a moral devota de estudantes. Nessa concepção, os estudos de gênero são configurados como a não verdade do sexo natural e do cristianismo. O ESP se constela em discursividades perigosas e geradoras de preconceitos, de violências e de silenciamentos das dissidências sexuais e de gênero e das compreensões feministas sobre a constituição das pessoas. Abstract: This research, in essayistic character and based on post-critical and feminist theorizations, aims to problematize the link between the Unpolitical School Movement and the fight against a supposed Gender Ideology, pointing to the creation of vigil, control and normalization practices about the genders and sexual differences. They also create fear in cultural school pedagogies. With an analytical focus, this essay establishes a genealogical course when considering the result of the reading of Law Projects, the propositions of the website of the movement and the actuality of the Brazilian context. It is possible to realize how religious discourses strengthen the persecution of gender studies and it is present in the politics of Brazil. It brings in its scope the discussion focused on the idea that Unpolitical School is an exception biopolitic, a mode of governmentality created from the thoughts and rules of particular groups that are inserted as the thought of all social groups and as a force of law without, however, being constituted as law. The article also discusses how this model of government gathers political and religious narratives and merges with an idea of a Gender Ideology that supposedly corrupts the devout moral of students. In this conception, gender studies are configured as the non-truth of natural sex and Christianity. The Unpolitical School is based on dangerous discursive and prejudices, violence and silencing of sexual and gender differences and feminist understandings about the constitution of people.
doi:10.33871/22386084.2020.9.17.154-179 fatcat:chr4rlfog5bvzi2pkadmb2vsg4