Teatro português contemporâneo – Aquário na gaiola: drama em dois atos, de Júlia Nery

Alleid Ribeiro Machado
2009 Revista Desassossego  
Desde os primórdios da literatura, a construção canônica da crítica literária se baseou na visão de "um único olhar" (o masculino), o qual, por sua vez, esteve submetido aos códigos e às regras da sociedade burguesa. Uma sociedade patriarcal, preconceituosa e resistente às transformações, na qual a mulher era excluída totalmente. Com a modernidade, ou seja, a partir do século XX em diante, a visão "feminina" de mundo começou a ganhar força em virtude dos movimentos feministas e ganhou força
more » ... e ganhou força também pela escrita e pela (re)descoberta de textos que fugiam aos cânones reconhecidos pela crítica e teoria literárias de então: textos escritos predominantemente por mulheres. Rompido o "destino de mulher", outrora disseminado como fato ou fardo natural constitutivo de uma suposta natureza feminina, consolidam-se no espaço da crítica e da literatura obras de autoras como Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, e mais contemporaneamente, Gayle Rubin, Judith Butler, dentre tantas outras. Em Portugal, ainda na década de 70, frente às desigualdades de gênero é escrita uma obra transgressora, que vem desnudar os paradigmas da tradição marialva: As novas cartas portuguesas, das autoras Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. No fim das contas, restou ao ocidente assimilar a idéia de que, longe de qualquer panfletagem, o presente, com todos os seus paradoxismos, é feminino. Embora, é válido lembrar, esse "feminino" também continue a representar construções das mais controversas. Hoje, diversos discursos operam no sentido de ditarem não apenas um, mas muitos modelos de ser mulher. Seriam as tais tecnologias a que faz referência Teresa de Lauretis. 2 Basta uma olhadela, por exemplo, em capas de revista supostamente direcionadas para este público e teremos uma galeria de tipos femininos: a mulher fatal; 1 Doutoranda em Letras -Literatura Portuguesa -na Universidade de São Paulo/USP. 2 Para Teresa de Lauretis, a construção de gênero ocorre através de várias tecnologias (como a mídia) e discursos institucionais com o poder de controlar o campo de significado social e assim, promover, implantar representações de gênero. Sobre as tecnologias de gênero ver LAURETIS, Teresa de. "A
doi:10.11606/issn.2175-3180.v1i2p210-213 fatcat:ijb4mjnaljcitmutw23fon6xlq