Obras incompletas, de Friedrich Nietzsche

Eduardo Brandão
2014 Discurso  
Eduardo Brandão | USP Todo filósofo pode ser interpretado em vários sentidos. Mesmo aqueles que por vezes são tidos como mais sistemáticos, ou que têm uma obra considerada mais, digamos, uniforme: basta ler textos de comentadores para dar-se conta dessa variedade. Alguns autores, no entanto, parecem se prestar ainda mais a isso: pense--se no caso de um Schelling ou de um Adorno. Em se tratando de Nietzsche, no entanto, poderíamos dizer que essa avaliação se torna quase que necessária, uma vez
more » ... cessária, uma vez que ela faz parte do próprio jogo que o filósofo estabelece com seu leitor: sua obra é um convite a essa alteração de pontos de vista, não só por assumi-la, mas pela própria forma em que os textos são compostos e avaliados pelo autor. Exploremos um pouco como isso se dá. São abundantes, na obra de Nietzsche, passagens que parecem se contradizer, ou que colocam pontos de vista diferentes sobre uma mesma questão, invertendo-a. E não é raro que o próprio Nietzsche chame a atenção sobre o estatuto dessas contraposições. Tome-se, nesse sentido, uma passagem exemplar, o §22 de Para além de bem e mal. Nesse texto, após criticar a concepção de natureza regular dos físicos, opondo a ela uma outra interpretação que aponta para a ausência de regularidade e leis na naturezavalendo-se da noção de vontade de potência -Nietzsche encerra o aforismo com estas palavras: "Suposto que também isto seja somente interpretação -e sereis bastante zelosos para fazer essa
doi:10.11606/issn.2318-8863.discurso.2014.89100 fatcat:ihsrrncyaffnvemp2wwcd37zva