Utilização de recursos estéticos em sala de aula

Maria Ester de Freitas
2005 RAE: Revista de Administração de Empresas  
Acostumamo-nos com o pensamento segundo o qual a geração atual de alunos de cursos de graduação valoriza a imagem, é hiperativa, tem um déficit de leituras e se limita a capítulos de livros ou meros resumos, lendo apenas as manchetes de jornais. A educação hoje estaria mais centrada num processo de sedução para prender a atenção do aluno do que na importância dos conteúdos. Professores devem se desenvolver mais como animadores de cursos do que como professores. As aulas devem ser essencialmente
more » ... dinâmicas e atrativas, sendo a classe um espaço democrático onde todos são iguais. Concordo em parte com essa análise, contudo não creio que forma e conteúdo sejam ou precisem ser necessariamente excludentes; que é fácil ou mesmo desejável que um professor seja bastante criativo e invente formas diferentes de dar aulas todos os dias; que ser professor é concorrer ao título de mais simpático; que todas as disciplinas sejam igualmente atraentes para todos, mas precisam ser lecionadas; que professo-res e alunos são iguais ou confrades, ignorando uma verticalidade e uma autoridade (inclusive burocrática) que é inerente a essa relação -vale dizer que a negociação pode ser o caminho preferencial, mas ela não torna a autoridade um requisito descartável. Obviamente que professores e alunos podem aprender uns com outros, ter bom relacionamento, desenvolver um diálogo franco e estabelecer um forte vínculo de respeito e confiança. Dito isso, lembro com muito carinho de aulas memoráveis ao longo da minha vida de estudante. Ainda nos tempos do ginásio, estudávamos a obra de José de Alencar encenando os personagens como num teatro, a traição em Dom Casmurro foi discutida como num tribunal (argumentos a favor e contra), usávamos histórias e músicas, rimas para memorizar teoremas matemáticos e fórmulas químicas, jogos e simulações. Tudo isso para dizer que não é de hoje que professores se esforçam para usar recursos mais lúdicos que tornem a aula mais produtiva. Isso não significa que uma preleção esteja necessariamente destinada a ser chata e monótona. Creio que uma das belezas do filme A sociedade dos poetas mortos está na esperança do professor de literatura de despertar a alma de seus alunos mais que os seus intelectos e no seu prazer em buscar esse objetivo. A tecnologia atual e a modernização das salas de aula favorecem um uso menor do giz e quadro verde. A própria postura do professor hoje parece ser mais leve e descontraída que no passado; mesmo o layout das classes é mais flexível para permitir diferentes arranjos e interações entre os alunos. Sinceramente acredito que os professores -ou a maioria delestêm interesse em dar uma aula prazerosa e ficam orgulhosos de si quando esse feedback transparece nos rostos dos seus estudantes. Também penso que os alunos -ou a maioria deles -têm interesse em aproveitar as aulas, em respeitar seus professores e não apenas em ser corpos presentes. É certo que há dias em que estamos mais dispostos, mais bemhumorados, mais disponíveis, mais iluminados, mais pacientes, e isso se reflete na qualidade da aula. Fico, pois, bastante feliz com o espaço que a RAE agora dedica à troca
doi:10.1590/s0034-75902005000300007 fatcat:ymehyrswjzafphwep26mcqzi6a