Dossiê: a literatura em tempos de repressão Literatura em combate: a ficção de Rubem Fonseca nos anos 70

Luciana Coronel
unpublished
Resumo: Nos anos 70, transcorridos sob a vigência do AI-5, Rubem Fonseca produziu uma literatura contestadora de teor 'marginal', marcada pelo embate com a censura ditatorial e também com a crescente indústria cultural. Cada um dos três livros publicados na década acirra, por meio da metaficção de sua forma narrativa, a tensão existente entre escritor e sociedade, constituindo um discurso ficcional problematizador do ufanismo patriótico disseminado então pela propaganda governamental.
more » ... namental. Palavras-chave: Rubem Fonseca; Contos; Metalinguagem; Anos 70; Teor marginal. Abstract: During the 70's when the country was under the law of AI-5 (institutional act n. 5), Rubem Fonseca produced an insurgent literature with a 'marginal' character, defined by the struggle against the dictatorial censorship and also against the growing cultural industry. Each one of the three books issued during this decade stirs up, through the metaficcion of his narrative form, the tension existing between writer and society, which constitutes a fictional speech that questions the patriotic pride, which was then disseminated by the government propaganda. Os anos 70 constituíram "o mais duro período da mais duradoura das ditaduras nacionais" (Gaspari, 2002). Ao mesmo tempo, foi a época das alegrias da Copa do Mundo de 1970, do aparecimento da TV em cores, das inéditas taxas de crescimento econômico e de um regime de pleno emprego-período este conhecido como o do "milagre brasileiro". A euforia do 'milagre' coincidiu paradoxalmente com os 'anos de chumbo', instaurados pelo AI-5 em dezembro de 1968. A utopia do 'Brasil grande' foi construída na época via televisão, via linguagem do espetáculo, numa circunstância histórica bastante específica, marcada pelo fechamento político e pelo estímulo governamental ao crescimento do mercado de bens simbólicos no país. Renato Ortiz compreendeu muito bem a dinâmica compensatória atribuída pelo poder ditatorial ao consumo de produtos culturais de massa: Os aspectos de difusão e de consumo dos bens culturais aparecem assim como definidores da política do Estado, a eles se associa ainda a idéia de 'democracia'. O Estado seria democrático na medida em que procurasse incentivar os canais de distribuição dos bens culturais produzidos. O mercado, enquanto espaço social onde se realizam as trocas e o consumo, torna-se o local por excelência, no qual se exerceriam as aspirações democráticas. (ORTIZ, 1994, p. 116) * Doutora em Literatura Brasileira pela USP.
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