O lobo e eu

Elias José
1970 Revista Literária do Corpo Discente da Universidade Federal de Minas Gerais  
O mal foi eu querer muita coisa, muita gente. Não soube construir com o que havia em mão. Seria fácil juntar os poucos ingredientes e construir uma maneira menos grave de suportar a rotina. Quiseram me ensinar que se pode aceitar as coisas, mas fui péssimo aluno. Não aprendi a contar com os pequenos lances que o dia-a-dia me dava às custas de grandes bocejos. As pessoas chegavam e era uma alegria. Vivíamos momentos de descobertas, mas nunca aconteceu conhecer. As pessoas partiam, mudavam de
more » ... iam, mudavam de rumos, encon travam-se. Não tenho inveja, mas custa-me saber que não segurei nada, ninguém. Os outros seguraram, aceitaram com naturalidade mudanças radicais, não se pouparam, não chora ram por antecipação. Aguardo um novo enterro e fico de braços cruzados. Não farei o gesto que poderá salvar e salvar-me. Aguardo as coisas com pessimismo, tal qual um sádico que vai ao circo esperando a queda do trapezista. Não, eu minto, não quero que haja quedas. Fico torcendo para que tudo dê certo, como nos filmes românticos. Não será meu o beijo final e não me importa muito. Importa é ir aprendendo a conhecer o lobo que anda rugindo, por perto. Quando conseguir acalmá-lo, poderei isolar coisas que impedem alongar meus passos. Poderei esquecer o pouco que cada uma deixou e que a fantasia não soube graduar em lentes de aumento. 71
doi:10.17851/0103-5878.5.5.71 fatcat:eo224fbdtzaafopmirzuukd6cm