A novelística das guerras coloniais portuguesas

Por Dias
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Se entendermos por literatura de guerra um corpus de obras de ficção que focalizem situações bélicas, há que reconhecer que em Portugal, país que durante o seu itinerário his-tórico tantas vezes se viu envolvido em lutas por vontade própria ou por necessidade pre-mente, esta literatura revela um certo carácter tímido, pelo menos até à década de 1970. Teriam de ser as então chamadas guerras do Ultramar, de 1961 a 1974, as que trariam à literatura portuguesa uma ampla dimensão a este nível. A
more » ... la 1 representa a mais vigo-rosa faceta desta literatura. Escrita em quase todos os casos por participantes no conflito, apresenta consistentemente um carácter de testemunho muito superior ao de efabulação, che-gando com frequência ao ponto de impedir uma nítida linha divisória entre ficção e memo-rialismo. Além disso, o que em retrospectiva resulta revelador, refere actos e atitudes mal conhecidos ao tempo da sua ocorrência, quando a palavra e a imagem oficiais camuflavam o clima de frustração e de desânimo que pouco a pouco ia dominando os combatentes. Também as atrocidades, individuais ou colectivas, foram ignoradas ou minimizadas, com a excepção de Wyriamu 2 , cujas repercussões mundiais não puderam de todo ser afogadas. Aspectos como estes são os que a novela de guerra destaca tão eloquentemente, trazendo uma mais imediata e verídica visão dos acontecimentos, quase sempre num olhar íntimo e pessoal. A novela de guerra surge na sua plenitude após um período de maturação, imposto não apenas pelas limitações dos tempos anteriores ao 25 de Abril de 1974 como também pela necessidade de reflexão, do ajustar experiências a outros horizontes. Por conseguinte assume envergadura primordialmente nos anos que vão da segunda metade da década de 1970 ao final da década seguinte 3. Torna-se evidente que antes da "revolução dos cravos" a única literatura de guerra auto-rizada era a apologética. Dessa literatura algumas obras apareceram, a vários níveis de quali-dade. Entre as de maior relevo destacam-se Sangue no Capim, de Reis Ventura, de 1963, e Aquelas Longas Horas, de Manuel Barão da Cunha, de 1968. A primeira destas novelas é cons-tituída por uma série de instantâneos nos quais, com patente artificialidade, se glorifica o heroísmo do soldado português e se proclama uma clara adesão à linha ideológica do governo de Salazar. A segunda obra deixa contudo uma impressão de mais sincera emotividade, embo-ra denuncie uma óptica semelhante, sem dúvida explicável pelo entusiástico idealismo e pela trajectória profissional do autor, alferes de cavalaria recém-formado pela Academia Militar 4. 1 Neste trabalho empregaremos o termo novela na acepção genérica que o uso hispânico e anglo-saxónico lhe confere. 2 Recorde-se que a 16 de Dezembro de 1972 soldados portugueses e agentes africanos da PIDE massacra ram cerca de 400 habitantes de Wyriamu, no norte de Moçambique, o que provocou violentas acusações a Portugal por muitos países. 3 Registam-se obviamente excepções. Por exemplo, ainda em 1994 aparece O Cair das Máscaras, de Marcos Vilalva, que inclui numerosas retrospectivas sobre a experiência bélica em Angola. 4 Mais tarde Barão da Cunha publicaria outras obras em que revela uma franca atitude de desencanto em relação às circunstâncias político-militares resultantes da revolução de 1974.
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