Em busca do tempo de Alceu

Marcos Cotrim de Barcellos
2009 Topoi  
MENDES, Candido. Dr. Alceu: da "persona" à pessoa. São Paulo: Paulinas, 2008. Alceu Amoroso Lima (1893-1983 foi um dos principais pensadores sociais da cena brasileira no século passado, com interesses que vão das questões políticas às econômicas e culturais, para cujo tratamento trouxe uma perspectiva assinalada por sua fé católica e sua irrenunciável vocação de crítico literário. Professor na Faculdade Nacional de Filosofia (hoje UFRJ), escritor com mais de oitenta títulos publicados, membro
more » ... a Academia Brasileira de Letras, cofundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, é hoje mais lembrado pela defesa que fez dos direitos civis nos tempos do Regime Militar. Jornalista que também era, ficou mais conhecido do grande público pelo pseudônimo, Tristão de Athayde. Trazendo a data que recorda a morte de Amoroso Lima há um quarto de século, e surgindo neste 2009, ano que assinala os noventa anos de estreia de Tristão de Athayde, o livro do professor Candido Mendes tem atributos para tornar-se referência importante para todos que desejarem se aprofundar no campo das interpretações do Brasil. Candido Mendes vale-se do olhar do próprio Tristão de Athayde -espectador privilegiado do diálogo entre fé e razão na cultura do século XX e ator no cenário que confrontou literatura, religião e política no Brasil -, para oferecer uma narrativa situada no mundo revolucionado em que Alceu "toma a palavra". Mendes junta, com autoridade de "herdeiro espiritual", à bibliografia a respeito de um dos mais importantes pensadores católicos contemporâneos, este relato do desenvolvimento, mais que biográfico, de uma visão de mundo. Deixa nele patente a admiração pelo homenageado, sem ceder no empenho pelo descrever preciso a que o conduz sua erudição, aliada ao conhecido estilo que permanentemente desafia o leitor. Entre os títulos publicados por Candido Mendes, em que se destacam temas relativos à liberda-de no mundo contemporâneo, encontra-se o viés teórico que em parte explica a envergadura do livro aqui resenhado: a abordagem ética, ao mesmo tempo humanista e confessional, do mundo da política, em suas expressões sociais, econômicas, ambientais ou jurídicas. O problema de uma coexistência pacífica das diferenças, tantas vezes exacerbadas com vezo pluralista, é trazido seguidamente à pauta de uma constatação do caráter globalizado, intrincado, dessas questões comuns a todos os homens. Títulos sobre a democracia, o progresso, a educação, a Igreja versus populum, o diálogo das culturas, o ecumenismo, acham-se ao lado de duas obras jubilares sobre o "Dr. Alceu", publicadas em 1984 e 1994. O ritmo de Dr. Alceu: da "persona" à pessoa traz este testemunho, o de um escrito que se faz mais a partir do personagem evocado do que sobre ele, equilibrando-se entre a urgência dos problemas que espicaçam a consciência e a disponibilidade ao mistério, que Mendes procura valorizar mediante o arejamento confessadamente "pós-moderno" de sua abordagem. Os seis capítulos do livro aparecem como superposições de tomadas que tentam enquadrar o personagem sem reduzi-lo ao script historiográfico vida-obra-pensamento, mas sem privar o leitor do efeito didático dessa técnica. Tristão dá a perspectiva que domina a observância do convertido, com sua ortodoxia militante; dá identidade às transformações que levaram Alceu nos caminhos da sensibilidade à questão social, do engajamento político, do testemunho solicitado pelos "sinais dos tempos". A "toma da palavra" por Alceu alarga a cena e dimensiona a estatura do personagem para além da récita, sob o olhar do crítico. Intérprete, Mendes mostra como a integração de vida, fé e pensamento aí subsiste como a força de um sentido, categoria com que matiza a trajetória de Alceu, convertido de 1928, e capta as nuanças que entregaram o coração desse admirador de Jackson de Figueiredo à fé do confidente de Leonel Franca e à inteligência do leitor de Ja-
doi:10.1590/2237-101x01001012 fatcat:cpzgor2su5as3cfqd7oknwrfei