A Construção dA AutonomiA ExprEssivA AtrAvés dA prátiCA ArtístiCA The Construction of Expressive Autonomy Through the Artistic Practice

Ricardo Coelho
unpublished
Resumo: Em janeiro de 2005, comecei a trabalhar em uma associação beneficente, com crianças de 7 a 14 anos, em uma comunidade carente, na periferia leste da cidade de São Paulo. Diariamente, das 8h às 12h durante quatro anos e meio. Foi esse o período, de intensa e produtiva convivência com mais de trezentas crianças, que mudou, para sempre, minha relação com o ensino das artes e, principalmente, a maneira como passei a encarar a função sócio-cultural da formação artística na construção da
more » ... construção da autonomia expressiva e, por que não, como instrumento determinante no fortalecimento da identidade de crianças e adolescentes em âmbito geral. O presente texto relata, de maneira informal, algumas das experiências vividas no Projeto Vida Nova, distanciando-se, portanto, de um texto com teor científico. Não porque ignore ou desconsidere os estudos no campo da educação relacionada às artes visuais, mas porque seria simular uma reflexão, que se estruturou essencialmente pelo olhar, pela disposição para com o encontro diário de personalidades e sensibilidades singulares. PalavRas-chave: Artes. Autonomia. Educação informal. Crianças e adolescentes. Vulnerabilidade social. três CoElhos Em umA CArtolA O primeiro contato que tive com as crianças do Projeto Vida Nova foi no final de 2004, em uma espécie de aula teste. Um telefonema inesperado pedia para que eu preparasse uma aula de arte para crianças de 9 a 10 anos. Não sabia o que fazer. Várias ideias me ocorreram naquela semana que antecedia esse encontro diferente, a maior parte delas óbvias. Uma profissional da instituição, educadora ou psicóloga, estava na sala quando cheguei. Ela permaneceu em silêncio observando tudo o que eu fazia. Pedi apenas lápis e papel de rascunho. Quinze crianças entraram na sala, cumprimentaram-me, na sequência, pedi para cada um se apresentar. Ao final, como seria de se esperar, perguntaram meu nome e minha idade, perguntaram se eu era o novo professor e se eu ocuparia o lugar do professor Lorenzo. Não respondi nada, pedi que olhassem para mim, pedi que me dessem um nome, idade e que inventassem uma história completa para mim. Na verdade, minha intenção era estabelecer um primeiro contato, entendendo um pouco quem estava diante de mim a partir do modo particular sobre como liam o mundo. Escreveram 1 Doutorando em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP-SP; professor assistente do departamento de Arquitetura, Urbanismo e Artes Aplicadas da Universidade Federal de São João del-Rei-UFSJ, Minas Gerais, Brasil.
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