Os pecados do lado debaixo do equador: notas sobre a épica sacra na América Latina

Leopoldo M. Bernucci
1998 Revista iberoamericana  
O aparecirento da epica religiosa latino-americana no seculo XVII e sua continuacao no XVIII, frente ao grande corpus das demais obras do genero, nao a urnfato desprezivel. A enorme quantidade de poeras sacros escritos em louvor a Virgem e aos principais santos da Igreja catolica explica o vigor, a entrada e a adapta9ao do terna religioso no genero epico, de onde se desprende ura parcela lirica produzida em sua grande maioria por cidrigos, aqueles filhos da Contra Reforra. Se devido a sua
more » ... devido a sua liritada qualidade, esta poesia hoje parece ser aborrecivel, o mesmo nao se pode dizer de sua transcendencia hist6rico-literaria. Atualmente, estudamos estes poeras para compreender meihor sua forma9Ao discursiva, nao de todo fAcil de ser entendida, e para chegar a conhecer o seu papel historico no contexto mais amplo da propaganda inaciana. Quanto a sua formacao textual, aldm das dificuldades de se poder medir o exito editorial que tiverar estas obras em suas respectivas dpocas, confrontaro-nos corn o problea de sua literariedade. Cono era de esperar, muitos destes poemas ao nao terern podido alcancar urn status Iiterario digno de respeito, ficararn esquecidos nas largas listas e catAlogos de livreiros, aguardando que a curiosidade de algurn colecionador os fosse retirando do seu estado de abandono. O que proponho exarninar aqui, e de modo urn tanto geral, sao alguns poernas latino-arnericanos escritos em espanhol e em portugues, cuja natureza religiosa os faz diferir dos poernas epicos laicos do Barroco latino-arnericano. Fixados os lirnites cronologicos do periodo, convdrn agregar que os poetas epicos sacros parecern ter seguido o seguinte ditado: "aquele que rnuito sobe aos cdus, perde a terra de vista ou a ve tao pequena ate nao poder mais enxergar o borbulhar hurnano e suas rnisdrias" (Figueiredo 331). A mesma analogia que Fidelino de Figueiredo tracou para Os Lusiadas a valida para o nosso contexto: "[q]uando a poesia [rnitologica] se destacou do [Hades] para a sua livre carreira [ate ' o Inferno], esqueceu a sua origern epica". (3 31). Se no XVI o Orlando furioso foi em palavras de Joaquin Arce corno urna nova Eneida, ao finalizar o seculo "as renascidas preocupa9Oes religiosas e os restaurados preceitos aristotdlicos o convertemn em objeto de censura. Agora, sirn, falar-se-a de urn novo Virgilio, rnas este sera Tasso" (Figueiredo 41).
doi:10.5195/reviberoamer.1998.6151 fatcat:ezg47q7rhzeudldyfa4v4vtsm4