Psicose ordinária: estatuto teórico e clínico na psicanálise de orientação lacaniana [thesis]

Eliane Aparecida Costa Dias
Para Artur. Meu querido companheiro. Por me lembrar que o amor é, ainda, a melhor invenção do falasser para fazer frente ao real de sua inefável existência. v AGRADECIMENTOS Momento de concluir e de agradecer as muitas presenças que alimentaram, cada uma a seu modo, o desejo de realização desse trabalho. A Maria Lívia T. Moretto, pelo acolhimento e pela orientação sempre confiante e respeitosa; mas, principalmente, pela disposição incansável em realizar e em compartilhar. A professora Sandra
more » ... stein e aos professores Christian Dunker e Vinícius Anciães Darriba, pelas preciosas contribuições durante o exame de qualificação. Aos colegas do grupo de orientação e Mundim. A capacidade de produção desse grupo é incrível. Esse texto tem marcas de cada um de vocês. Aos colegas da CLIPP, com quem partilho, há anos, a loucura de trabalhar pela psicanálise de orientação lacaniana. A Niraldo de Oliveira Santos, pela leitura cuidadosa e precisa do texto em sua fase final. E pela parceira de trabalho de tantos anos. É muito bom contar com você. A Lucimara Carvalho (minha amiga Lú), pelo rigor e o carinho no trabalho de revisão. A Carlos Augusto Niceas, cuja escuta tem me ajudado a sustentar o movimento em direção à minha diferença. A Maria do Carmo Dias Batista, pela supervisão na construção do caso clínico discutido nesta tese. Sua transmissão da psicanálise, sempre precisa e generosa, é marca em minha formação como analista. A querida Mirian Pinho. Bom encontro que a vida trouxe. Aos meus pais, que fizeram de suas vidas e de sua casa o meu porto seguro; principalmente a você, meu pai, que me ensinou muito cedo o valor do conhecimento e a paixão pelo trabalho. A CAPES, pelo apoio financeiro. A cada um dos seres-falantes que me renovam, a cada dia da prática com a psicanálise, o desejo do analista. vi RESUMO DIAS, E. A. C. Psicose ordinária: estatuto teórico e clínico na psicanálise de orientação lacaniana. Tese (Doutorado) -Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Essa tese tem como questão central o estatuto teórico e clínico da Psicose Ordinária, hipótese clínica proposta desde 1998, no âmbito da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), como tentativa de abordagem e de teorização sobre os casos atípicos da clínica psicanalítica: sintomas que não preenchem claramente os critérios de formação substitutiva e de mensagem simbólica da neurose, mas também não configuram os clássicos fenômenos elementares da psicose. Apresentada inicialmente como um programa de investigação e de refinamento da diferenciação entre neurose e psicose, a hipótese de Psicose Ordinária, no entanto, passou a ser cada vez mais utilizada como um diagnóstico, mobilizando intenso debate no campo da psicanálise de orientação lacaniana. Considerando a importância do diagnóstico diferencial para a condução de um tratamento, a pesquisa tem o objetivo de delimitar a especificidade, o alcance conceitual, bem como os limites da noção de Psicose Ordinária. Para isso, inicialmente, discutese o que é um conceito em psicanálise e são apresentadas as principais perspectivas com que a questão do diagnóstico vem sendo abordada na psicanálise lacaniana. A noção de Psicose Ordinária é interrogada a partir da análise crítica da extensa bibliografia produzida a respeito, visando identificar os fatos clínicos, as matrizes conceituais e as linhas argumentativas que sustentam sua proposição, sua utilização, bem como as críticas que lhe são endereçadas. Conclui-se que a Psicose Ordinária é um conceito forjado a partir das premissas e dos avanços teóricos do último ensino de Lacan e configura uma nova categoria clínica dentro do campo das psicoses: uma psicose não desencadeada, onde a singularidade de um sinthoma assegura, ainda que de forma frágil, o enlaçamento de Real, Simbólico e Imaginário e a inserção no laço social. Propõe-se que a Psicose Ordinária configura, também, uma ferramenta epistêmica com potencial de circunscrever e fazer avançar a tarefa de precisar as especificidades e as implicações teóricas e clínicas da evolução do ensino de Lacan. Palavras-chave: Psicose Ordinária; Psicose; Psicanálise; Diagnóstico. vii ABSTRACT DIAS, E. A. C. Ordinary psychosis: theoretical and clinical statute in Lacanian-oriented psychoanalysis. Tese (Doutorado) -Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. This thesis has the theoretical and clinical statute of Ordinary Psychosis as its core question, a clinical hypothesis proposed in 1998 within the scope of the World Association of Psychoanalysis (AMP), as an attempt to approach and theorize about the atypical cases in the psychoanalytic clinic: symptoms that do not clearly meet the criteria of substitutive formation and of neurosis symbolic message, but neither configure the classic elementary phenomena of psychosis. Initially presented as a program of investigation and refinement of the differentiation between neurosis and psychosis, the hypothesis of Ordinary Psychosis, however, has become increasingly used as a diagnosis, mobilizing intense debate in the field of Lacanian-oriented psychoanalysis. Considering the importance of the differential diagnosis for conducting a treatment, the research aimed at delimiting the specificity, the conceptual scope, as well as the limits of the hypothesis of ordinary psychosis. To do so, initially, it is discussed what a concept is in psychoanalysis, then, the main perspectives, with which the diagnosis matters are being approached in Lacanian psychoanalysis, are presented. Ordinary Psychosis is interrogated from the critical analysis in the extensive bibliography produced concerning the subject, whose aim is to identify the clinical facts, its conceptual matrices and the argumentative lines that support its proposition, its utilization, as well as the critiques addressed to it. A conclusion is reached: Ordinary Psychosis is a concept which was forged based on premises and theoretical advances of Lacan´s last teaching. It configures a new clinical category within the field of psychoses -an unchained psychosis, in which the singularity of a sinthoma ensures, although in a fragile way, the entanglement of Real, Symbolic and Imaginary and the insertion in the social bond. It is proposed that Ordinary Psychosis also constitutes an epistemic tool with potential to circumscribe and advance the task of specifying the peculiarities and the theoretical and clinical implications of Lacan's teaching evolution. Enfim, a noção de psicose ordinária é forjada nesse momento para condensar essa gama de fenômenos identificados na clínica: manifestações sintomáticas diferentes (diferentes formas de desligamento do Outro, diferentes formas de relação com o corpo, diferentes formas de dar sentido à existência, de situar-se e transitar no laço social); -diferentes posicionamentos no dispositivo analítico (ausência de demanda, formas estranhas de estabelecimento da transferência, pouco interesse pela palavra, pouca resposta à interpretação e à produção de sentido). E proposta como uma "hipótese clínica" de refinamento da diferenciação entre neurose e psicose e como um "programa de investigação" em torno das incertezas e impasses da clínica contemporânea (BATISTA; . No entanto, o fato é que, desde então, a noção de psicose ordinária passou a ser cada vez mais utilizada como um diagnóstico, pelo menos no âmbito da AMP e do Campo Freudiano. Diante dessa rápida e crescente disseminação, em 2008, Miller propõe uma retomada da discussão, visando situar e precisar a noção de PO. No texto Efeito de retorno à Psicose Ordinária (MILLER, 2012) esclarece que a psicose ordinária não tem uma definição conceitual rígida. Não inventei um conceito com a psicose ordinária. Inventei uma palavra, inventei uma expressão, inventei um significante, dando a ele um esboço de definição que pudesse atrair diferentes sentidos, diferentes ecos de sentido em torno desse significante. Não ofereci um saber-fazer sobre a utilização desse significante. Fiz a aposta de que este significante poderia provocar um eco no clínico, no profissional. (MILLER, 2012, p. 401). Miller afirma que, embora não seja uma categoria de Lacan, a PO foi uma "criação necessária, extraída do que chamamos o último ensino de Lacan. Se tentamos agora lhe dar uma definição, trata-se de uma definição a posteriori" (id., p. 402). Um sintagma cuja invenção foi necessária para ultrapassar a rigidez de uma clínica binária, marcada pela rígida separação neurose/psicose. À medida que, na clínica contemporânea, deparamos com o aumento frequente de casos que ficam entre essas duas categorias, a noção de PO romperia com a ideia de uma descontinuidade entre neurose e psicose ou estabeleceria outra modalidade de continuidade. Essa nova relação de continuidade entre neurose e psicose estaria por ser definida e desenvolvida teoricamente. A noção de PO surge, portanto, como hipótese norteadora de um programa de investigação que tem como objeto os casos considerados inclassificáveis da clínica psicanalítica. No entanto, como veremos adiante, a abordagem desse objeto de estudo pela via da oposição continuidade/descontinuidade -embora não seja essa a única linha argumentativa de sustentação da noção de PO -acabou se configurando como um importante entrave ao 2005).
doi:10.11606/t.47.2019.tde-25022019-110840 fatcat:3cllhyko5fb5xnsorevpkpl75a