Anti-IGE: uma nova proposta no tratamento da asma

Sonia Ferrari Peron
2007 Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba  
Doenças respiratórias alérgicas (rinite e asma brônquica) troleandomicina e sais de ouro têm falhado em demonstrar são doenças inflamatórias das vias aéreas que estão em ascensão uma proporção aceitável de risco-benefício. Portanto, esse em muitos países. A asma está entre as doenças crônicas mais grupo de pacientes constitui uma população desafiadora, com prevalentes, afetando 300 milhões de pessoas mundialmente, poucas opções terapêuticas disponíveis. com um aumento previsto de 100 milhões em
more » ... o de 100 milhões em 2025. Muito se tem estudado sobre a fisiopatologia da asma A Organização Mundial de Saúde estima que a asma é nos últimos anos, sendo que há apenas três décadas a asma responsável por 239.000 mortes por ano em todo o mundo tem sido considerada uma doença inflamatória crônica, na (0,4% de todas as mortes atribuíveis a doenças). qual estão envolvidos linfócitos do tipo 2, citocinas, Em 1998, foi publicado estudo multicêntrico realizado mastócitos, imunoglobulina E (IgE) e vários outros em 56 países, que mostrou uma variabilidade de asma ativa de mediadores químicos. 1,6 a 36,8%, entre crianças e adolescentes, estando o Brasil Desde a descoberta dos anticorpos IgE, ocorrida em 1 1968, nossos conhecimentos sobre os mecanismos de alergia em 8º lugar, com uma prevalência média de 20% . avançaram muito e podemos diferenciar doenças Desde 1993, a fim de normalizar os procedimentos em respiratórias, como a asma, em alérgica (atópica) da nãoasma no mundo, iniciou-se o programa "Global Initiative for alérgica, conhecida também como intrínseca. Asthma" (GINA), cujas diretrizes foram publicadas 2 Asma alérgica é uma reação de hipersensibilidade subseqüentemente e atualizadas recentemente. iniciada por mecanismos imunológicos mediados por Segundo o GINA, a gravidade da asma é classificada de anticorpos IgE. Estes têm papel central na iniciação e acordo com as características clínicas da doença em propagação da cascata inflamatória e resposta alérgica intermitente e persistente, e está subdividida em leve, moderada através da ativação de receptores de IgE presentes nas células e grave, sendo que o tratamento ambulatorial proposto é efetoras. baseado nesta classificação. A despeito do avançado conhecimento da Para um controle ideal da asma, as diretrizes do GINA fisiopatologia da asma e de outras doenças alérgicas, o recomendam que o tratamento seja administrado em passos, tratamento preconizado até o momento nada tinha a ver com o aumentando as medicações até que os sintomas sejam bloqueio dessa cascata alérgica. adequadamente controlados. Pensando nisso, novas pesquisas foram delineadas O tratamento da asma intermitente leve se baseia no para tratar a asma alérgica antagonizando IgE por anticorpos uso de broncodilatadores de resgate, conforme necessário, e anti-IgE, com o objetivo de reduzir a inflamação das vias doses crescentes de corticosteróides inalados são indicados aéreas. Dentre essas pesquisas, foi desenvolvida uma nova para controlar as asmas persistentes leves, moderadas ou droga: o omalizumabe. graves. Trata-se de um anticorpo anti-IgE monoclonal Ainda em casos de asma persistente grave pode-se recombinante e humanizado que se liga à IgE livre e impede precisar acrescentar outros medicamentos para atingir um as reações IgE-mediadas subseqüentes. A molécula é controle adequado da doença, tais como 2-agonista de longa constituída por uma estrutura de imunoglobulina humana G duração, teofilinas, cromonas e antagonistas de leucotrienos. (IgG), sobre a qual é enxertada a região variável da fração Fab Cerca de 5 a 10% de todos os casos de asma se de anticorpo anti-IgE desenvolvido em camundongos. enquadram como asma persistente grave e esses pacientes O omalizumabe se liga seletivamente à fração Fc da apresentam incidência mais alta de internação hospitalar IgE circulante e, conseqüentemente, previne a ligação da IgE recorrente e morte. ao mastócito e outras células efetoras. Sem essa ligação, os Um estudo prospectivo realizado na França, em 2002, mastócitos não reconhecem os alérgenos, prevenindo a mostrou que os pacientes classificados com asmáticos ativação celular pelos antígenos e os subseqüentes sintomas persistentes graves foram responsáveis por mais que o dobro da asma. Ainda diminui os níveis séricos de IgE de maneira dos custos diretos, como consultas, exames suplementares, dose-dependente, reduz a quantidade dos receptores de IgE procedimentos médicos, fisioterapia, cuidados domésticos, nas células efetoras e melhora significativamente os serviços de ambulância, medicações e suprimentos médicos parâmetros inflamatórios das vias aéreas. quando comparados aos asmáticos persistentes moderados, Os complexos formados pela união do omalizumabe que correspondem a 25% -30% de toda a população de 3 com a IgE são pequenos e não capazes de ativar complemento asmáticos. ou desencadear doenças de imunocomplexos, e os efeitos Outros estudos realizados na Espanha e Itália também adversos são comparáveis ao placebo. revelaram que os custos globais, diretos e indiretos, são 4,5 Comparações com outras terapias para asma devem maiores em pacientes com asma persistente grave. ser ainda conduzidas, mas a eficácia clínica e sua Existe uma clara necessidade não atendida para um tolerabilidade indicam que omalizumabe é uma opção viável tratamento efetivo e seguro de asma persistente grave, que é no tratamento da asma alérgica. inadequadamente controlada apesar de seguidos os passos preconizados pelo GINA. Drogas experimentais, incluindo metotrexate, ciclosporina, azatioprina, cloroquina,
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