Vaccine against hepatitis B. Comments apropos of a strategy [editorial]
Vacinação contra a hepatite B. Comentários a propósito de uma estratégia

M C de Moura
Acta Médica Portuguesa  
A hepatite B é uma das doenças infecciosas mais importantes do nosso tempo que não foi ainda controlada. O conhecimento sobre o vírus da hepatite B (VHB) e das consequências da infecção pelo VHB tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Ë uma causa importante de doença hepática crónica progressiva, cirrose e carci noma do fígado em muitos países. As vacinas actualmente existentes e comercializadas são imunogénicas, eficazes e seguras. Contém partículas do AgHBs, mas não têm AgHBc, AgHBe
more » ... ão têm AgHBc, AgHBe nem sequências pré-S. A evidência de trabalhos recentes aponta que não existem diferenças em termos de eficácia protectora entre as vacinas derivadas do plasma e as vacinas recombinadas a partir de leveduras. A protecção conferida pela vacina parece ultrapassar os 5-7 anos na maioria dos adultos saudáveis correctamente vacinados, mesmo que em cerca de um terço se assista a uma diminuição do título do anti-HBs passados cinco anos~. Embora a administração de um reforço não seja ainda recomendada pelos organismos interna cionais, este deve ser considerado em todos os indivíduos que se mantenham em catego rias de alto risco. É nossa opinião que os indivíduos que responderam à vacina devem ser re-testados entre o quarto e o quinto ano pós-vacinação. Os que apresentem níveis de anti-HBs abaixo do limiar protector (arbitrariamente definido em = ou > 10 mUI ml) e nos quais a re-infecção pelo VHB é provável, aconselha-se uma dose de reforço. As várias estratégias da vacinação contra a hepatite B que têm sido propostas assen tam numa caracterização das condições epidemiológicas do país em causa. Os dados epidemiológicos disponíveis colocam Portugal numa situação semelhante à da maioria dos países da Europa Mediterrânica, com níveis intermédios de endemicidade da hepa tite B. Em nossa opinião a estimativa do impacto da hepatite B em Portugal é a seguinte: Prevalência global 20-35% (todos os marcadores do VHB) Estado de portador 1.4-2% Incidência da hepatite aguda B (sintomática): 20 casos! 100.000 população; aproximadamente 2000/ano (estimativa feita com base nos estudos italianos dado que os dados oficiais traduzem a reconhecida não notificação da doençanotificados 337 casos em 1988, considerando os prováveis casos de hepatite B incluídos na hepatite não classificada sobem para cerca de 600). Sendo aceite que a relação entre a hepatite aguda sintomática e hepatite inaparente é de 1 para 9, pode admitir-se que por ano ocorrem em Portugal cerca de 20.000 novos casos de infecção pelo VHB. Destes 10% evolucionarão para a cronicidade, o que tota liza 2.000 casos de hepatite crónica e cirrose hepática por ano. O número total de portadores crónicos do AgHBs oscila entre 140.000 a 200.000. Admitindo que cerca de 10% tem hepatite crónica este dado aponta para cerca de 14.000 a 20.000 casos de hepatite crónica B em Portugal. Cerca de metade podem evoluir para cirrose hepática, o que dá uma estimativa de 7.000 a 10.000 doentes com cirrose hepática associada ao VHB. É difícil obter dados sobre o carcinoma hepatocelular, mas é de admitir que 5% dos portadores com cirrose hepática possam ter essa evolução, o que dá 350 a 500 casos de tumor primitivo do fígado.
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