Perspectivas do progresso inalcançável em Totônio Pacheco, de João Alphonsus

Pedro Barbosa Rudge Furtado
2021 Anuário de Literatura  
ALPHONSUS, João. Totônio Pacheco. São Paulo: Com-Arte/EDUSP, 2019. (Coleção Reserva Literária; 8). A coleção Reserva Literária, fruto da parceria entre a Editora da Universidade de São Paulo e a Com-Arte, proporciona a reedição de mais um título relevante -e atualmente não muito lido -da literatura brasileira. Sendo apresentada em uma edição de capa dura, contendo os detalhes do trabalho editorial encetado sobre o texto e, ainda, um prefácio do professor Ivan Marques -conhecedor profundo do
more » ... rnismo mineiro -a obra Totônio Pacheco, de João Alphonsus, joga luz sobre os conturbados anos de 1930 mediante uma voz narrativa em terceira pessoa atenta tanto às equações sociais quanto individuais. Lançada primeiramente em 1935, a narrativa é incluída na extensa lista do chamado romance de 30. Apesar de ser um período profícuo em termos de difusão de prosas representativas de cantos do país outrora não abraçados, "o resíduo literário [das narrativas] nem sempre foi dos melhores, mas o fenômeno não deixa de ser interessante" (LUCAS, 1976, p. 77). A baixa produção de narrativas memoráveis deu-se muito devido à potente infiltração da polarização política da época, como Luís Bueno (2015) investiga com afinco em Uma história do romance de 30. Grosso modo, os escritores de esquerda deveriam compor livros de cunho social, enquanto os de direita deveriam compor livros psicológicos, focados no íntimo do sujeito. Destoavam desse esquema simplista, no entanto, o que Flora Süssekind (1984, p. 198) denomina "literatura-contra"; isto é, neste caso, as narrativas que imbricavam dialeticamente as formas/conteúdo sociais e psicológicas. A despeito da construção formal sui generis de Totônio Pacheco, que demora a fixar a personagem principal, que nem sempre aparenta ser o epicentro dos acontecimentos, a prosa irradia tensões históricas e ontológicas, especialmente no que tange ao afeto da desilusão, colhido "com pachorra, num ritmo moroso e sereno" (MARQUES, 2011, p. 178).
doi:10.5007/2175-7917.2021.e77697 doaj:c3ec26cbccdc4a2bbf267ac088f5568e fatcat:rdfes6fbtneahkfzxltpublbii